O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Política, p. 4
França quer pesquisa de segundo turno para ter acordo com Haddad
Malu Gaspar
Em conversa com o ex-presidente Lula em São Paulo, na terça-feira, o ex-governador Márcio França (PSB) disse que topa desistir de sua candidatura ao governo paulista se Fernando Haddad, pré-candidato do PT, estiver melhor nas pesquisas. Segundo França relatou a interlocutores, no entanto, a pesquisa que vai basear a escolha não pode ser uma de primeiro turno. Teria que ser sobre cenários de segundo turno, seja contra o ministro Tarcísio Gomes de Freitas, candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, ou contra Rodrigo Garcia (PSDB), vice de João Doria.
Haddad também participou da reunião na terça. A candidatura única ao Palácio dos Bandeirantes é pré-condição para que o PT e o PSB caminhem juntos na disputa nacional, seja formando uma federação ou uma coligação em torno de Lula.
França argumenta que não dá para medir quem está melhor colocando na mesma ficha de respostas os três pré-candidatos da esquerda na primeira etapa da eleição — ele, Haddad e Guilherme Boulos (PSOL).
Isso porque, como a intenção é que se feche o acordo em torno de um único nome, só daria para saber quem tem mais chance de vencer a eleição testando os cenários com apenas um deles contra os possíveis oponentes.
A razão da exigência é simples. França acredita que, no segundo turno, ele tem mais chances do que Haddad de angariar votos, diferentemente do petista, que teria um eleitorado majoritariamente de esquerda. Segundo aliados de França, as pesquisas internas do PSB já estariam mostrando isso.
Depois de duas horas de conversa, Lula disse que ia consultar o PT antes de voltar com uma contraproposta. Embora nada tenha ficado decidido, foram dados alguns sinais claros do que pode ser oferecido em compensação à França, caso ele desista da eleição estadual.
O pré-candidato do PSB gosta da ideia de ser ministro em caso de vitória de Lula, mas não tem vontade de ser candidato ao Senado, uma vez que o apresentador José Luiz Datena é considerado um candidato muito forte e difícil de bater.
O que França quer mesmo é ser candidato ao governo. E acha que se for para não concorrer, pelo menos o critério da pesquisa seria uma justificativa plausível para seu eleitorado. Em 2018, ele teve mais de 10 milhões de votos no segundo turno para o governo do estado, quando foi derrotado por Doria por uma diferença pequena.
A condição colocada por França não quer dizer que não haverá acordo com o PT, até porque fechar o apoio do PSB antes do final da janela partidária é importante para a estratégia de Lula. Mas tudo indica que essa negociação vai levar mais tempo do que o esperado para ser fechada.