Correio Braziliense, n. 22708, 23/05/2025. Brasil, p. 6
Mulher negra é a maior vítima do racismo diário
Iago Mac Cord
O crime de racismo sofrido pela ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral, Vera Lúcia Santana, na semana passada, apenas confirma a violência que a população negra sofre diariamente, nos mais diversos ambientes. É o que mostra o relatório Mais dados, mais saúde, da Vital Strategies e da Umane, com apoio institucional do Ministério da Igualdade Racial. Pela pesquisa, de 10 tipos de discriminação pela cor da pele, as mulheres negras são as que dizem sofrer a maior variedade de preconceitos.
O levantamento mostra que as negras são o grupo que mais acusou dois ou mais motivos (72% do total) das discriminações sofridas.
Em seguida, estão os homens negros: um total de 62,1% afirma ter sofrido dois ou mais tipos de preconceito.
O relatório traz 2.458 registros, coletados entre agosto e setembro de 2024, e os participantes são residentes das cinco regiões do país, agrupados por local de moradia, gênero e região.Foi aplicada a Escala de Discriminação Cotidiana a partir da pergunta: “No seu dia a dia. Com qual frequência essas coisas a seguir acontecem com você?”. Foram apresentadas 10 situações de discriminação e, para cada uma, quatro opções de resposta: nunca, raramente, frequentemente e sempre.
Os indivíduos negros e pardos reconhecem, com maior frequência, os tipos de discriminação apresentadas. A população negra, especificamente, lidera em todas as opções: são tratados com menos gentileza, com menos respeito, como se não fossem inteligentes, como se (não negros) tivessem medo deles, como se (não negros) fossem melhores do que eles, recebem atendimento pior, acham que são desonestos, são xingados, ameaçados e seguidos.
Apenas nas respostas “raramente”, “frequentemente” e “sempre” para os negros, foram mais frequentes as percepções de discriminação nos casos de serem tratados com menos respeito (92,5%), com menos gentileza (84,7%), serem seguidos em lojas (80,7%), receberem um atendimento pior (79,9%) e não negros agindo como se eles não fossem inteligentes (74,3%).
A população parda, por sua vez, afirmou perceber mais o preconceito contra eles nos casos de serem tratados com menos gentileza (68,2%), tratados com menos respeito (60,1%) e quando os não pardos agem como se fossem melhores que eles (59,5%).
Ao perguntarem aos entrevistados sobre as possíveis razões a que atribuiriam a discriminação, as justificativas mais comuns entre os que se identificam como negros e pardos foram: por conta da raça, educação ou renda; aparência física; ancestralidade ou local de origem. A pesquisa levantou, ainda, que 84% dos negros ouvidos relataram alguma forma de discriminação racial. Entre os pardos, o percentual foi de 10,8%.