O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Brasil, p. 10

SEDE SOB AS CINZAS

Cleide Carvalho e Gabriela Gonçalves*


Fuligem e carros-pipa se tornam parte do cenário da seca no no Sul

A maior estiagem dos últimos 70 anos na Região Sul mudou o cenário gaúcho nos céus e na terra. No céu, há nuvens de fuligem expelidas a partir de incêndios florestais na Argentina, em consequência da mesma seca. Na terra, caminhões pipa passaram a percorrer o interior do Rio Grande do Sul, onde poços artesianos também começaram a ser usados pelos municípios para enfrentar a falta de água, em ações geralmente associadas ao Nordeste.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul informou ontem que 414 municípios, o que corresponde a 83% do total, decretaram situação de emergência.

A seca alcança também o Sudoeste de São Paulo e o Sul e Sudoeste do Mato Grosso do Sul. Mas a pior situação é no Norte do Rio Grande do Sul. Em janeiro, um fenômeno com epicentro na Argentina elevou as temperaturas na região a mais de 40°C, com sensação de calor à beira de 50°C em diversas cidades.

As “chuvas de fuligem” vindas da Argentina começaram na semana passada e atingiram principalmente o município de São Borja, na fronteira. Até o início da semana, a estimativa era de que ao menos 780 mil hectares haviam sido consumidos nos últimos 50 dias pelo fogo na província argentina de Corrientes.

AJUDA AO VIZINHO

O Corpo de Bombeiros gaúcho enviou soldados para atuar do outro lado da fronteira, em Santo Tomé, a pedido do prefeito. Apenas em janeiro, a Argentina registrou 7.199 focos de incêndio. A média histórica mensal é de 1.648 focos de calor.

Além das cinzas, há a falta de abastecimento. A cidade de Garibaldi construiu um poço artesiano que garante 600 mil litros de água por dia aos moradores. Fontoura Xavier conta com dois caminhões, um pipa e outro adaptado, para entregar 36 mil litros aos produtores rurais diariamente. A empresa responsável pelo abastecimento em 317 municípios gaúchos informou que Santo Expedito do Sul e São Valentim também estão utilizando caminhões-pipa.

O problema chegou a outros estados. Na semana passada, Chapecó, uma das cidades mais importantes de Santa Catarina, decretou emergência depois que o manancial que a abastece secou. A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento passou a captar água do Rio Uruguai, na divisa com o Rio Grande do Sul.

O Paraná também enfrenta o desabastecimento. Na Região Metropolitana de Curitiba, o racionamento se arrastou por 23 meses.

O rodízio no fornecimento de água potável começou em março de 2020 e só foi encerrado em 21 de janeiro. Cerca de 3,6 milhões de pessoas foram afetadas. No pior período, de agosto de 2020 a março de 2021, a população alternou 36 horas com abastecimento de água e 36 horas de torneiras secas.

— É um fenômeno subcontinental que se arrasta há dois anos. E quando em algum lugar chove muito, é porque em outro está faltando — diz o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo Marengo.

IMPACTO DIFUSO

Segundo o pesquisador, a diferença é que os efeitos da seca são de mais longo prazo, como insegurança hídrica, alimentar e energética. Eles também afetam a vida das pessoas e têm forte impacto na biodiversidade, como no Pantanal. A chuva, porém, causa mais mortes, com enchentes e deslizamentos de terra.

Especialistas alertam que o fenômeno El Niño poderá ocorrer no segundo semestre, provocando uma situação oposta à de hoje: temperaturas gélidas vão marcar o outono no Sul do país.