O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Economia, p. 17
BID cancela empréstimo à Marfrig após críticas de ONGs
Entidades argumentam que empresa não tem controlado o desmatamento em sua cadeia de fornecedores. Crédito de US$ 200 milhões iria para o Plano Verde+
O plano para concessão de um empréstimo de US$ 200 milhões liderado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) à Marfrig Global Foods caiu por terra, em meio a preocupações de que a segunda maior produtora de carnes do Brasil esteja alimentado o desmatamento na Amazônia.
O braço do setor privado do BID engavetou o plano de liderar o empréstimo após uma série de contratempos. Uma votação sobre o financiamento foi adiada de dezembro para maio, segundo duas pessoas a par do assunto. O banco não chegou a um acordo com a empresa sobre metas ambientais, nem sobre os termos financeiros, disse uma dessas fontes. Agora, no site do BID, o empréstimo consta como inativo e não mais sujeito a votação.
Com o desmatamento da Amazônia na maior velocidade em 15 anos, frigoríficos como Marfrig e JBS são cada vez mais criticados por um possível papel na destruição da maior floresta tropical do mundo. Mais de 70% das áreas desmatadas da Amazônia se tornam pasto para alimentar gado.
Grupos ativistas, incluindo o Friends of the Earth, começaram a pressionar o BID no ano passado, alegando que a linha de crédito infringiria as políticas de sustentabilidade da própria instituição.
PLANO DE SUSTENTABILIDADE
O principal argumento é que a Marfrig não cumpriu uma promessa feita há mais de uma década de rastrear toda a sua cadeia de suprimentos e não consegue identificar as fazendas de origem de boa parte do gado que compra na Amazônia para abate.
Uma investigação da Bloomberg, publicada no mês passado, mostrou como Marfrig e JBS usam um sistema de rastreamento tão cheio de falhas que não é considerado confiável por autoridades, ambientalistas e até mesmo pecuaristas.
No empréstimo, US$ 43 milhões viriam do braço BID Invest, e US$ 157 milhões, de um consórcio. O crédito foi anunciado em abril de 2021 para financiar o Plano Verde+ da Marfrig, que visa reforçar a sustentabilidade da cadeia de carne bovina.
Em e-mail, a Marfrig confirmou que o empréstimo não está mais em análise, sem comentários adicionais. O BID, também por e-mail, informou que “chegou ao acordo mútuo de que as condições não eram ideais para avançar com o empréstimo” após uma diligência aprofundada do Plano Verde+.
—Esperamos que a decisão do BID Invest de desistir do empréstimo à Marfrig seja um alerta a outros bancos — disse Kari Hamerschlag, vice-diretora de alimentos e agricultura do Friends of the Earth nos EUA.
— Bancos de desenvolvimento não podem continuar financiando operações pecuárias industriais, que puxam a crise climática com desmatamento e perda de biodiversidade, no Brasil e no mundo.