O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022. Economia, p. 15

Após carnaval, governo quer saque de R$ 1 mil do FGTS

Geralda Doca


Trabalhadores poderiam resgatar quantia de seu saldo no Fundo de Garantia, com potencial de injetar R$ 30 bilhões na economia em ano eleitoral

O governo quer anunciar, logo após o carnaval, uma nova rodada de saque do FGTS, que poderia, pelos estudos até o momento, liberar a cada trabalhador a retirada de até R$ 1 mil de suas contas no fundo. A medida pode beneficiar 40 milhões de pessoas e injetar R$ 30 bilhões em ano eleitoral.

Além disso, o governo pretende usar pelo menos R$ 3 bilhões dos recursos do Fundo para fomentar um fundo garantidor de crédito, gerido pela Caixa Econômica Federal, para concessão de empréstimo a informais e inadimplentes em novo programa de microcrédito, conforme antecipou O GLOBO.

A ideia do saque foi antecipada na terça-feira pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Para autorizar o resgate de recursos, o governo quer editar medida provisória (MP). O valor a que cada trabalhador terá direito vai depender dos saldos das contas existentes e deverá ser limitado a até R$ 1 mil.

FUNDO USADO DESDE 2017

Após o anúncio da medida, a Caixa vai efetuar o pagamento dentro de um cronograma, de acordo com o mês de nascimento dos trabalhadores. O saque será automático, ou seja, não será necessário pedir o recurso, ele estará disponível na data informada.

Com a pandemia, a equipe econômica cogitou liberar um novo saque emergencial em 2021, mas não havia disponibilidade de recursos no FGTS. A situação melhorou devido às aplicações do Fundo em títulos públicos com a alta da taxa básica de juros, a Selic.

O governo já autorizou saques das contas do Fundo em outras ocasiões. Em dezembro de 2017, foi liberado na gestão de Michel Temer, mas apenas para as contas inativas. Em julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro autorizou o saque imediato de R$ 500 por conta (ativa e inativa) do FGTS, e criou a modalidade do saque-aniversário. Em abril de 2020, por causa da pandemia, também foi autorizado o saque de um salário mínimo, na época em R$ 1.045.

Mas a medida gera críticas. Ontem, as entidades representativas do setor da construção civil enviaram uma carta conjunta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, em que cobram esclarecimentos sobre a nova rodada de saque do FGTS. No documento, os empresários pedem que a medida não seja implementada para não sacrificar empregos, alegando que o FGTS, base do financiamento imobiliário popular, não pode ser transformado em complemento de renda.