O GLOBO, n 32.343, 24/02/2022.  Mundo, p. 19

Primeiras sanções contra Moscou têm impacto mínimo

André Duchiade


Rússia se preparou para proteger sua economia durante anos; para especialistas, medida mais significativa é suspensão de gasoduto

Do ponto de vista político, a rodada inicial de sanções ocidentais contra a Rússia ofereceu uma demonstração de unidade entre Washington e seus parceiros europeus. No entanto, segundo especialistas nesse tipo de mecanismo de pressão, estas primeiras sanções devem ter um impacto quase insignificante sobre a economia russa. Nos últimos anos, Moscou — que está sob sanções desde 2014, quando anexou a Península da Crimeia da Ucrânia — guardou reservas para proteger seu sistema econômico exatamente contra o tipo de medida adotada pelos EUA e os europeus.

De acordo com Thomas Biersteker, especialista em sanções econômicas do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, para serem eficazes, penalidades econômicas precisam demonstrar seriedade, como, por exemplo, disposição para arcar com os custos da medida. Por outro lado, devem apontar para impactos ainda maiores no horizonte.

— Temos que pensar nas sanções como interligadas às negociações. Manda-se um sinal forte de que se está muito chateado, mas, para mandar este sinal, é necessário mostrar que se está disposto a pagar o custo — afirmou Biersteker ao Business Daily, da BBC. —E, obviamente, não se joga tudo de uma vez. É necessário guardar suas cartas.

VIRADA DE SCHOLZ

Das medidas iniciais, para ele, a mais importante veio da Alemanha. Na terça-feira, o chanceler Olaf Scholz anunciou medidas para paralisar o licenciamento do gasoduto Nord Stream 2. Concluída em setembro, a obra, de US$ 11 bilhões, permitiria o aumento do fornecimento de gás russo para a Europa, e aguarda autorização para operar.

No passado, Scholz havia mostrado não estar disposto a abrir mão do gasoduto. O processo de licenciamento, por ora, foi pausado, e não cancelado. Ao tomara medida, todavia, ele sinalizou estar disposto a ir longe para conter uma agressão russa na Ucrânia.

—Eu esperava que essa medida fosse ser guardada para uma segunda rodada de sanções —afirmou Biersteker.

A sanção ao Nord Stream 2 também pode ser considerada uma vitória provisória dos Estados Unidos, antigos opositores da iniciativa. Ontem, o governo americano anunciou sanções contra a empresa que construiu o gasoduto.

Já do ponto de vista econômico, as sanções não devem provocar grandes impactos imediatos. Elas vieram sobretudo dos EUA, e o presidente Joe Biden às anunciou com pompa na terça-feira:

—Vou começar a impor sanções em resposta, muito além das medidas que nós e nossos aliados e parceiros implementamos em 2014 —disse Biden.

As sanções incluem um bloqueio total ao banco de desenvolvimento VEB, a quinta maior instituição financeira da Rússia, e ao Promsvyazbank, o banco militar. Há ainda penalidades contra três filhos de altos funcionários próximos a Putin e restrições à capacidade da Rússia de emitir dívida soberana, isto é, de se financiar com empréstimos no exterior.

Segundo a consultora em geopolítica Rachel Ziemba, as sanções “tentaram equilibrar uma coordenação entre aliados, a proporcionalidade e a dissuasão”, e “focam sua atenção nos interesses governamentais e militares, e não nos indivíduos”. Para ela, essas sanções “são menos dolorosas do que as mais fortes que poderiam ter sido impostas, mas tornarão o investimento russo em projetos de crescimento muito mais difícil”, escreveu.

DÍVIDA BAIXA E RESERVA ALTA

Outros, no entanto, são mais céticos. Segundo Max Seddon, chefe do escritório do Financial Times em Moscou, “é preciso deixar claro que as sanções bancárias não prejudicam de fato a Rússia ”.“O VEB nem é realmente um banco – é, basicamente, um caixa dois financiado pelo Estado”, escreveu ele. “Já o Promsvyazbank foi nacionalizado como objetivo específico de ser sancionado para proteger outros bancos de medidas dos EUA .”

Quanto aos filhos de autoridades, outros oficiais do alto escalão russo também recebem o mesmo tipo de sanção, mas continuam a operar companhias públicas sem grandes entraves.

Em relação ao impedimento de obter empréstimos, o governo russo passou anos tentando reconfigurar seu Orçamento e suas finanças para poder aguentar novas sanções, esforços que foram auxiliados pelos altos preços de mercado do petróleo e do gás. O governo tem uma dívida baixa, de 18% do PIB em 2020, e depende menos de empréstimos do exterior do que antes de 2014. Mais importante, o Banco Central acumulou reservas em moeda estrangeira (com reservas em ouro e euro superiores às em dólar) de US$ 631 bilhões, o quarto maior montante desse tipo no mundo.

Segundo Elina Ribakova, economista chefe do Instituto Internacional de Finanças, “o governo da Rússia está em superavit fiscal” e o país, além de rolar sua dívida, “está ‘sobrefinanciando’ empréstimos, quando estritamente falando não precisa”. De acordo com Ribakova, o excedente de liquidez dos bancos russos, de US$ 11 bilhões, “é menor após a Covid em relação aos US $64 bilhões devidos a credores estrangeiros, mas ainda pode percorrer longo caminho acomodar a saída de investidores ”.

A União Europeia pôs políticos russos sob embargo, incluindo ontem o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e proibiu o comércio com as duas regiões separatistas. A UE também concordou em princípio com sanções que incluem restrições à negociação de dívida soberana russa no bloco e miram bancos menores.

ESTRAGOS NO OCIDENTE

Retaliações mais duras podem estar a caminho, como a proibição da exportação de certas tecnologias para a Rússia e sua exclusão do sistema SWIFT. No entanto, penalidades severas podem também prejudicar os fluxos comerciais globais. Isso significa que, se no lugar de uma invasão total, a incursão russa em solo ucraniano for restrita, as punições a Moscou também podem ser limitadas, para evitar estragos nas próprias potências ocidentais.

—A questão não é apenas o impacto imediato nos mercados financeiros, mas o fato de que é quase impossível no curto prazo separar a Rússia do comércio global—disse Ribakova ao NewYork Times.