O GLOBO, n 32.348, 01/03/2022. Economia, p. 12
Companhias apertam o cerco à Rússia e saem do país
Petroleiras Shell, Equinor e BP vão se desfazer de ativos. Montadoras, empresas de leasing e outras suspendem vendas
Empresas ocidentais de diferentes setores — transportes, autopeças, leasing de aeronaves e energia— anunciaram suspensão de negócios com a Rússia em consequência da invasão da Ucrânia. O movimento evidencia que o cerco ao país vai além das sanções financeiras e envolve desinvestimentos diretos e paralisação de exportações de bens, que atingem em cheio a indústria russa.
Entre os anúncios mais contundentes estão os das petroleiras BP, Shell e Equinor. As três gigantes do petróleo anunciaram o fim de suas parcerias com as estatais de energia russas Gazprom e Rosneft. A BP já havia anunciado no domingo que iria se desfazer dos 20% que tem na Rosneft. Cerca de 50% das reservas da BP estão na Rússia.
Ontem foi a vez de Shell e Equinor seguirem o mesmo caminho. No caso da Shell, a empresa anglo-holandesa vai romper parceria de US$ 3 bilhões com a Gazprom. Isso inclui a unidade Sakhalin 2 LNG, na qual detém participação de 27,5%.
“Na atual situação, vemos nossa posição como insustentável”, disse em nota o presidente-executivo e presidente do Conselho de Administração da norueguesa Equinor, Anders Opedal.
A empresa atua na Rússia há mais de 30 anos e firmou acordo de cooperação com a Rosneft em 2012. A Equinor tem cerca de 70 funcionários na Rússia e produz aproximadamente 25 mil barris diários de óleo equivalente (que inclui petróleo e gás) no país, uma fatia pequena em relação à sua produção total, de mais de 2 milhões de barris por dia.
GOVERNANÇA E IMAGEM
Tanto Reino Unido como Noruega integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar liderada pelos EUA.
A montadora sueca Volvo Cars vai suspender as remessas de carros ao mercado russo até novo aviso. Em comunicado, disse que tomou a decisão por causa de “riscos potenciais associados ao comércio com a Rússia, incluindo sanções impostas pela UE e pelos EUA”. A Volvo vendeu cerca de 9 mil carros na Rússia em 2021.
A fabricante sueca de caminhões AB Volvo, do mesmo grupo, disse que interrompeu produção e vendas na Rússia devido à crise na Ucrânia.
A alemã Daimler Truck (do mesmo conglomerado da Mercedes Benz) congelou atividades comerciais na Rússia, incluindo a cooperação de 12 anos com a fabricante de caminhões russa Kamaz. Não serão fornecidos componentes à parceira. O grupo ao qual pertence a Daimler detém 15% das ações da Kamaz.
Entre as montadoras, mesmo as que não romperam laços com a Rússia já enfrentam problemas de falta de peças. A francesa Renault suspenderá algumas operações em suas fábricas no país devido a gargalos logísticos. A Renault controla a Avtovaz, a maior montadora da Rússia.
IMPACTO NO SETOR AÉREO
Para Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial, as empresas agem com base em dois fatores: a retirada dos bancos russos do sistema de pagamentos Swift, que dificulta operações, e preocupação com imagem e governança:
— Essas empresas, ultimamente, têm uma agenda de preocupação ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) e, naturalmente, estão tentando sinalizar a seus acionistas que as atitudes da Rússia são inaceitáveis mesmo que, no curto prazo, isso gere perdas de lucros.
No setor de aviação, a maior empresa de leasing de aeronaves do mundo, a AerCap Holdings, com sede em Dublin, disse que vai rescindir contratos de aluguel de aviões para a Rússia, pois as sanções não permitem que os negócios sigam adiante. Considerando o valor dos contratos ,5% da frota estavam alugadas ao país no fim de 2021.
O mesmo fará a BOC Aviation, que também atua com leasing. Ela informou que a maioria de seus contratos na Rússia teriam que ser rescindidos até 28 de março. A decisão vai provocar um baque na indústria de aviação russa. As empresas do país têm 980 jatos de passageiros em serviço, dos quais 777 são alugados, de acordo com a consultoria Cirium.
A Rússia advertiu o Ocidente de que iria retaliar contra sanções que visavam sua indústria aeronáutica. Governos de vários países fecharam o tráfego aéreo a voos russos.
O grupo de transporte marítimo Maersk avalia suspender as reservas de contêineres. Já a operadora de telecomunicações sueca Ericsson decidiu suspender as entregas para a Rússia, enquanto avalia o impacto potencial das sanções.
O banco global HSBC está começando a encerrar relações com uma série de bancos russos, incluindo o segundo maior, o VTB. O banco tem pouca exposição direta na Rússia, com cerca de 200 funcionários e receita anual de US$ 15 milhões no país, contra sua receita global de US$ 50 bilhões.