O GLOBO, n 32.348, 01/03/2022. Brasil, p. 10

Korubos: surto de Covid atinge 70% da etnia de recente contato

Daniel Biasetto


Contaminados vivem no Vale do Javari, Amazonas, não receberam 3ª dose e têm sistema imunológico mais vulnerável

Um surto de Covid-19 entre os indígenas korubo, no Vale do Javari, na Amazônia, acendeu o alerta para o risco iminente de contaminação de outros grupos de recente contato existentes na região, onde há maior concentração de povos isolados do mundo.

O GLOBO apurou que mais de 70% dessa etnia (75 de 103 indivíduos) que vive entre os rios Coari e Ituí, no município de Atalaia do Norte, testaram positivo para a doença nas duas últimas semanas.

Os korubo foram contatados pela primeira vez em 1996, depois outras três expedições de contato foram realizadas, sendo a última delas em 2019. Eles têm por hábito cultural dormir em uma mesma maloca, em geral com apenas uma porta em cada extremidade da oca, sem janelas, o que facilitaria ainda mais a contaminação.

A contaminação dos korubo põe em xeque o plano do governo federal de combate à Covid nas aldeias e comprova que a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) falharam diante da determinação dada há cerca de dois anos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de instalar barreiras sanitárias em locais estratégicos para proteger povos indígenas.

Esses são os primeiros casos de coronavírus registrados desde o início da pandemia entre os korubo, cuja cobertura vacinal não está completa. Até o momento, dos 75 casos, 43 se encontram em cura clínica e 32 seguem em monitoramento diário pelas equipes de saúde, todos “sem apresentar sintomas de síndrome gripal”, afirma a Se sai. O órgão diz ainda que os índices de vacinação contra a Covid-19 em pessoas acima de 18 anos, até o dia 21 de janeiro, no Vale do Javari, são de 87% para a primeira dose; 82% para a segunda; e 21% para a terceira.

O GLOBO teve acesso a um áudio em que um tradutor korubo relata a situação nas aldeias próximas do Coari, onde vive o grupo de mais recente contato. Ele diz que os indígenas contaminados apresentaram, até o momento, sintomas “moderados” da doença.

‘POSSIBILIDADE DE GENOCÍDIO’

O que preocupa as entidades é o fato de esses indígenas contaminados entrarem em contato direto com outros korubos que vivem no Coari, recém-contatados em 2019 e considerados ainda mais vulneráveis por terem resposta imunológica menos eficiente para combater infecções virais, como o coronavírus, e bacterianas. Há ainda na região um grupo da mesma etnia que vive em situação de total isolamento e, portanto, não foi vacinado.

—Essa situação demonstra, na prática, a total inoperância da Funai sobre todas as denúncias apresentadas ao STF. Ela continua fazendo um trabalho paliativo, não consistente, como se deve, como foi determinado pelo supremo — afirma Beto Marubo, coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), autor da denúncia de surto na área.

— A probabilidade de o coronavírus chegar tanto entre os isolados quanto a outros povos de recente contato é muito grande. A diferença é que alguns indígenas infectados conseguem ser atendidos no posto da Sesai. Os isolados não. Eles voltam para a aldeia, e se infectam entre si e morrem. A possibilidade de um genocídio é real nesse contexto 

Já entre os indígenas mais jovens do Vale do Javari a situação é ainda mais delicada. Nenhum adolescente de 12 a 17 anos recebeu sequer uma dose do imunizante.

O controle do fluxo de indígenas pelos rios do Vale do Javari tem acontecido de forma precária, sustenta a Univaja, assim como o atendimento dos agentes de saúde aos povos de recente contato. De acordo com Marubo, para além da inexistência das barreiras sanitárias, outro fator que preocupa é o aumento das invasões por caçadores e pescadores ilegais, que se aproveitam da fiscalização frágil.

Além dos korubo, habitam o Vale do Javari os povos marubo, mayoruna, matis, kanamari, tsohom Djapa, e kulina pano. Há ainda o registro da existência de 15 povos isolados, dos quais dez já foram confirmados e outros cinco estão em estudo.