VALOR ECONÔMICO, n 5420, 19/01/2022, Internacional, A9
Passaporte de covid melhora vacinação e economia na UE
Donato Paolo Mancini
Países europeus que adotaram o passaporte de covid aumentaram a adesão à vacinação e melhoraram o desempenho da saúde pública e da economia, ajudando, assim, potencialmente, a evitar lockdowns, segundo um novo estudo.
A exigência dos certificados na França, Alemanha e Itália aumentou a taxa de vacinação nesses países em 13, 6,2 e 9,7 pontos percentuais, respectivamente, disseram pesquisadores do centro de pesquisa Bruegel e do Conselho Francês de Análise Econômica, em estudo publicado ontem. O efeito da medida foi “considerável” entre grupos populacionais de idade mais avançada, segundo o estudo.
Os certificados, que têm nome diferente em cada país, contribuíram ainda para evitar milhares de internações e mortes em hospitais, além de reduzir a taxa de ocupação das UTIs, estimam os pesquisadores. Na Alemanha, a adesão à vacinação era baixa até serem lançadas regras mais rígidas em novembro, como o uso obrigatório do passaporte de covid em locais de trabalho. Na Itália, a pressão sobre as UTIs ficou baixa durante o período de realização do estudo.
O estudo estimou que, sem o passaporte, ao fim de 2021 o Produto Interno Bruto (PIB) da França, Alemanha e Itália teria sido € 6 bilhões, € 1,4 bilhão e € 2,1 bilhões inferior, respectivamente.
Os passaportes de covid, que comprovam a vacinação, a recuperação de uma infecção pelo coronavírus ou um teste negativo recente, foram gradualmente lançados em vários países no ano passado, visando ampliar o máximo possível a cobertura vacinal.
O documento em geral libera o acesso a locais públicos a quem tem a vacinação em dia, quem se recuperou de covid-19 ou quem tem um teste negativo recente.
Os certificados de vacinação não tornam, tecnicamente, a vacinação compulsória, mas impedem o acesso de não vacinados a um série de locais públicos e até mesmo ao local de trabalho, Além disso, alguns países, como França e Itália, determinaram a obrigação de vacinação de alguns parcelas da população, como trabalhadores da área de saúde ou idosos. A adoção da obrigatoriedade da vacinação e de passaportes de covid tem sido polêmica, embora o estudo sugira que seu impacto é positivo.
“O uso abrangente de passaportes de covid é um instrumento calculado para controlar a pandemia e evitar a vacinação obrigatória ou novos lockdowns”, disse Miquel Oliu-Barton, pesquisador do Bruegel e professor de matemática e economia da Universidade Paris-Dauphine. “Em muitos países, isso levou a um aumento da vacinação e a consequências menos graves para a saúde e para a economia.”
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a obrigatoriedade da vacinação deve ser usada como “último recurso”.
Segundo Oliu-Barton, os pesquisadores concentraram o estudo nesses três países pelo fato de terem lançado o passaporte de covid por volta da mesma época, entre julho e agosto do ano passado, para regular o acesso a espaços públicos. Além disso, esses países têm disponibilidade de vacinas, economia, sistemas de saúde e configuração demográfica comparáveis.
Alguns países estão endurecendo as regras do passaporte. A França aprovou lei no domingo que veda a indivíduos não vacinados o acesso a bares, restaurantes e outros locais. Antes, os não vacinados podiam frequentar esses espaços mediante apresentação de prova de teste negativo recente. A Itália lançou um “superpassaporte” que exige prova de vacinação.
Oliu-Barton acrescentou que os resultados do estudo - ainda não submetidos a revisão pelos pares - não são necessariamente válidos para outros países. Decisões dos governos também devem considerar fatores adicionais, como a oferta de testes e vacinas contra a covid, níveis de confiança política no país e acesso disponível a grupos marginalizados, para que esses programas não “ameacem a coesão social nem exacerbem as desigualdades pré-existentes”.
Os passaportes de covid parecem ser uma alternativa atraente, mais inclusiva, à adoção da obrigatoriedade da vacina, ao focar nos benefícios adicionais de ser vacinado ou testado, e não em medidas punitivas por não tomar a vacna”, disse Oliu-Barton. Ele observou que os passaportes podem ter um papel fundamental no aumento e manutenção da proteção vacinal diante da variante ômicron.