Valor Econômico, v. 22. n. 5420, 19/01/2022, Internacional, A9
Argentina quer pacto com FMI que evite novo prejuízo eleitoral
Roberto Lameirinhas
A Argentina tenta um acordo para renegociar sua dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em termos que evitem compromissos de austeridade capazes de prejudicar o governo de Alberto Fernández nas eleições presidenciais do ano que vem. Setores do peronismo atribuem ao corte de gastos sociais a derrota nas eleições legislativas de 2021. Mas a negociação é difícil.
Em março, vence uma parcela de US$ 2,9 bilhões do empréstimo de US$ 45 bilhões, concedido à Argentina em 2015, ainda durante o governo de Mauricio Macri. Ao longo de 2022, os valores das parcelas deste crédito a vencer somam US$ 19 bilhões.
O mercado espera por um novo pacto com o FMI desde a última reestruturação da dívida argentina com credores privados, em agosto de 2020. Mas o Fundo insiste na imposição de ajustes mais rígidos, com mais cortes.
Isso significa menos programas sociais, menor investimento público e redução de serviços estatais. Na visão do FMI, essas medidas ajudariam o país reverter o cenário econômico, que registrou inflação de quase 51%, no ano passado e mantém uma taxa de câmbio controlada artificialmente a 50% do valor no mercado paralelo. Fernández, porém, resiste a assumir esses compromissos.
“A ponderação que costuma ser feita pelo FMI é que a Argentina representa um caso particular, o que é verdade”, diz Nicolás Alonzo, economista-chefe da consultoria Orlando J. Ferreres & Asociados, de Buenos Aires. “Um cenário de default aberto [com o FMI] causaria mais queda da confiança dos investimentos privados, mais alta do dólar no câmbio paralelo e mais inflação”, prossegue Alonzo. “A possibilidade de um acordo em termos intermediários parece ser o mais provável, diante do fato de que as opções não são muitas.”
O empréstimo feito à Argentina corresponde a mais de 50% da carteira do FMI. “Um calote poderia comprometer a própria funcionalidade da instituição” diz Alonzo.
Em busca de um acordo mais flexível, o governo argentino tenta politizar as negociações. O ministro da Economia, Martín Guzmán, quer um pacto que reduza juros, alongue prazos de vencimentos e esteja vinculado com uma meta de superávit fiscal apenas em 2027.
A diplomacia argentina tem procurado o governo dos países que são os principais sócios do FMI para apresentar suas alegações e responsabilizar o governo de Macri pelo endividamento e pela situação fiscal. Apresenta também os gastos com a pandemia de covid-19 para justificar a atual situação econômica: o PIB de 2021 deve crescer entre 9% e 10%, após queda de 9,9% em 2020. Projeções para 2022 estimam um crescimento entre 2% e 3%.
Essa ofensiva diplomática levou o chanceler argentino, Santiago Cafiero, a Washington - onde se reuniu ontem com o secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, para pedir apoio ao país nas discussões com o FMI.
O Fundo, porém, argumenta que foi flexível no pacote inicial, com Macri, admitindo ter errado ao aceitar projeções de crescimento, que não se realizaram.
“Não creio que a Argentina seja bem-sucedida na estratégia de politizar as negociações para ganhar tempo ou obter a complacência do FMI”, afirmou o economista Arturo Porzecanski, do Centro de Estudos Latino-Americanos da American University. “Em nenhum momento o governo apresentou proposta que demonstre como vai atrair os dólares necessários para cumprir seus pagamentos. E, sem esse compromisso, o conselho do FMI não aprovará uma renegociação que, na prática, é um novo crédito.”
Em termos econômicos, os acenos do governo para os negociadores do Fundo foram tímidos. No começo do ano, o Banco Central aumentou os juros 2 pontos percentuais, para 40% ao ano - bem abaixo da inflação.
Mesmo assim, analistas consideraram o movimento importante. “Isso não torna as taxas reais positivas, mas deve ser visto como uma ação ‘pré-preliminar’ e um sinal positivo na direção de um programa com o FMI”, afirmou o ex-assessor do Fundo e vice-economista chefe do Instituto Internacional de Finanças (IIF), Sergi Lanau. “Mesmo que um novo acordo não faça mais do que controlar os danos, será suficiente para levantar um pouco as avaliações de títulos rebaixadas nos últimos anos.”
“Acredito que o FMI está avaliando seriamente as consequências de não chegar a um acordo e de um consequente calote da Argentina, mas concordar com um programa muito brando que acabaria fracassando também não parece ser uma boa alternativa”, diz o economista-chefe do Goldman Sachs para a America Latina, Alberto Ramos. “O certo é que o FMI, em grau maior ou menor, e o governo argentino, em grau maior ou menor, querem um novo programa, mas ainda assim as discussões não têm sido fáceis.”