O GLOBO, n 32.351, 04/03/2022. Mundo, p. 16

SEM TRÉGUA, ROTA PARA SAÍDA DE CIVIS



RÚSSIA E UCRÂNIA ACERTAM CORREDOR HUMANITÁRIO

Na segunda rodada de negociação com o objetivo de abrir caminho para um cessar-fogo na guerra iniciada na semana passada, representantes da Rússia e da Ucrânia concordaram ontem com a criação de corredores humanitários em áreas em conflito, mas as principais questões ainda seguem em aberto. Em paralelo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, voltou a defender a realização de uma reunião com o líder russo, Vladimir Putin —segundo ele, a única forma de pôr fim à guerra.

TERCEIRA RODADA À FRENTE

Em declarações logo após a reunião, o representante ucraniano, Mikhailo Podolyak, afirmou que os dois lados discutiram questões humanitárias e concordaram com a criação de corredores para a retirada de civis e entrega de alimentos e medicamentos em regiões onde há combates. Ele sugeriu que russos e ucranianos poderão estabelecer uma suspensão dos enfrentamentos durante as retiradas, mas não detalhou tal proposta.

Podolyak confirmou que os representantes voltarão a se encontrar “em breve”, mas reconheceu que os resultados ficaram aquém do esperado, em especial em relação a ações concretas para pôr fim à guerra, como uma trégua temporária enquanto ocorrem as iniciativas diplomáticas.

— Concordamos em continuar as negociações em uma terceira rodada o mais rápido possível—disse Podolyak, citado pela agência RIA Novosti.— Infelizmente, não obtivemos os resultados esperados.

O acordo sobre os corredores foi confirmado pelo representante russo, Vladimir Medinsky, assim como a proposta para um cessar-fogo temporário durante a retirada dos civis nas áreas próximas.

—A principal questão resolvida hoje é o resgate de pessoas, civis que se encontravam na zona de confrontos militares — afirmou, em declarações transmitidas pela RT.

Para o representante de Moscou, esses acertos configuram progressos “substanciais”, e ele indicou haver sinais de entendimento em outros pontos, mas não elaborou.

Antes de o encontro começar em Brest, cidade na fronteira da Bielorrússia com a Polônia, as imagens da TV russa mostraram os representantes dos dois lados apertando as mãos. A primeira reunião, na segunda-feira, embora levasse a avanços concretos, permitiu a realização da segunda rodada de negociações.

Enquanto isso, o presidente da França, Emmanuel Macron, continua tentando mediar uma solução para o conflito. Ontem, Macron conversou com Putin e Zelensky, mas chegou a uma conclusão sombria após a conversa com o russo: “o pior ainda está por vir” na guerra em curso

Segundo o comunicado do Palácio do Eliseu, em conversa que durou uma hora e meia, Putin afirmou que a operação russa pode “se intensificar” se os ucranianos não aceitarem suas condições.

Em outra frente, 45 dos 57 membros da Organização para a Cooperação e Segurança da Europa (OSCE) deram sinal verde ao acionamento do chamado Mecanismo de Moscou da instituição, que permite o envio de especialistas para resolução de questões dentro dos Estados participantes. A missão na Ucrânia investigará possíveis crimes de guerra cometidos pelas forças russas.

“Vamos responsabilizar a Rússia por seus crimes de guerra e contra a Humanidade”, escreveu no Twitter o chanceler ucraniano, Dmytro Kuleba.

Também ontem, o presidente Zelensky voltou a pedir uma reunião com Putin e se disse disposto a abordar qualquer questão que venha à tona, inclusive o status das autoproclamadas repúblicas separatistas no Leste do país, reconhecidas por Moscou e ponto central da guerra.

— Preciso falar com Putin, pois é o único jeito de frear essa guerra — disse Zelensky, em entrevista coletiva. — Sente-se comigo na mesa de negociações, estou livre. Só não a 30 metros de distância, como fez com o presidente francês, Emmanuel Macron e com o chanceler alemão Olaf Scholz, eu sou um vizinho!

ZONA DE EXCLUSÃO AÉREA

O líder ucraniano pressionou o Ocidente a intensificar a ajuda ao seu país e alertou que outros países da Europa estarão em risco caso a Rússia vença a guerra.

— Se desaparecermos, que Deus nos proteja, em seguida serão Letônia, Lituânia, Estônia... até o Muro de Berlim, acreditem em mim —disse.

Zelensky defendeu, ainda, o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre o território ucraniano, como forma de impedir a atuação dos militares russos. Para ele, se a Otan não quiser implementar a zona de exclusão, os países deveriam dar aviões à Ucrânia.