O GLOBO, n 32.351, 04/03/2022. Política, p. 4
MUDANÇA ESTRATÉGICA
Aguirre Talento e Patrik Camporez
Novo diretor geral da PF troca chefe do setor que investiga Bolsonaro e outros políticos
A sete meses das eleições, o novo diretor-geral da Polícia Federal, Marcio Nunes, decidiu mudar o comando do setor responsável por investigar políticos com foro privilegiado, inclusive o presidente Jair Bolsonaro —a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor). Ele também promoverá mudanças em outras três cadeiras na cúpula da corporação, as diretorias de Inteligência Policial (DIP), Gestão de Pessoal (DGP) e Tecnologia da Informação e Inovação (DTI).
A mais sensível das alterações ocorrerá na Dicor, justamente pela natureza de atuação da área e o momento em que ela acontece. Nos dois últimos anos em que houve pleitos presidenciais, 2014 e 2018, período em que a Operação Lava-Jato corria a todo vapor, ações da PF foram determinantes para enterrar alguns projetos políticos eleitorais, muitos deles de aliados dos governos da época. Grande parte dessas investidas foram feitas pela Dicor, já que miravam em políticos com mandato.
Atual chefe da área, o delegado Luís Flávio Zampronha, que tem no currículo participação em investigações de combate à corrupção, como o escândalo do mensalão, deverá dar lugar a Rodrigo Pellim, superintendente da PF no Ceará.
ASSUNTO INCÔMODO
A Dicor tem sido um assunto incômodo para Bolsonaro, frequentemente acusado de tentar interferir na atuação da PF. O primeiro a levantar tal suspeita, em abril de 2020, foi então ministro da Justiça, Sergio Moro, que deixou o governo naquela ocasião. Mais recentemente, no mês passado, já como postulante à Presidência da República, ele voltou à carga e afirmou que a Polícia Federal abriu mão de investigar grandes casos de corrupção, missão que caberia à Dicor.
—Hoje não tem ninguém no Brasil sendo investigado e preso por grande corrupção — afirmou Moro em entrevista à rádio “Jovem Pan”, em fevereiro deste ano.
A PF rebateu a acusação, por meio de uma nota oficial, dizendo que Moro mentia. “O ex-ministro não aponta qual fato ou crime tenha conhecimento e que a PF estaria se omitindo a investigar. Tampouco qual inquérito policial em andamento tenha sido alvo de ingerência política ou da administração”, dizia o texto. O comunicado da PF foi elaborado por determinação do então diretor-geral, Paulo Maiurino.
A dança das cadeiras promovida por Marcio Nunes vai atingir outros postos do andar de cima da PF. A Diretoria de Inteligência Policial ficará com o delegado Alessandro Moretti, que vinha trabalhando como diretor de Tecnologia da Informação. Esta pasta, por sua vez, está prestes a ser entregue a João Vianey Xavier Filho, atualmente, corregedor da corporação. A superintendente da PF no Piauí, Mariana Calderon, tende a assumir a Diretoria de Gestão de Pessoal. Outra delegada, Maria Amanda Medina, que é a superintendente da Polícia Federal no Tocantins, deverá ser alçada ao cargo de chefe de gabinete do novo diretor-geral.
Marcio Nunes anunciou seu plano de mudanças no organograma aos atuais ocupantes dos cargos nos quais ele pretende mexer. Caso essas quatro nomeações se concretizem, Nunes já terá que escolher novos nomes para a chefia das superintendências da PF no Ceará, Piauí, Goiás e Tocantins, já que os titulares dessas cadeiras assumirão novas posições. Substituições em outros estados, comuns quando chega um diretor-geral, também não estão descartadas.
Nunes, porém, definiu que irá manter três diretores nomeados por seu antecessor, Paulo Maiurino. Permanecem onde estão o diretor-executivo Sandro Avelar, responsável pela gestão administrativa da PF e que substitui o diretor-geral em caso de ausência; André Viana Andrade, diretor de Logística; e Nivaldo Pôncio, que hoje é diretor Técnico Científico, departamento responsável pelas perícias criminais da PF.