Valor Econômico, v. 22. n. 5422, 21/01/2022, Política, A9
Rodrigo Maia coordenará programa de governo de João Doria
Cristiano Romero
Correção: Rodrigo Maia será coordenador do programa de governo do candidato do PSDB à Presidência da República, João Doria, e não coordenador de campanha. O título da matéria foi alterado.
O ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (sem partido-RJ), será o coordenador do programa de governo do candidato do PSDB à Presidência da República, João Doria, governador de São Paulo. Convidado na terça-feira, Maia foi surpreendido com o aceno, mas aceitou prontamente a oferta. Atual secretário estadual de Projetos e Ações Estratégicas de São Paulo, o deputado acredita que Doria tem potencial para se firmar como a “terceira via”: “Ainda é cedo, os números ainda não mostram todo o potencial de votos do João”, disse. Os três grandes pilares da campanha serão os compromissos com a democracia, a questão ambiental e a responsabilidade fiscal.
O político carioca, nascido no Chile em 1970, integra o grupo de auxiliares mais próximos de Doria. Em agosto do ano passado, Maia se licenciou do mandato de deputado federal para assumir o comando a Secretaria de Projetos e Ações Estratégicas do governo paulista. Sua atribuição é dar agilidade a inúmeros projetos de privatização em curso no Estado, firmar parcerias público-privadas (PPPs) e promover leilões de concessão de serviços públicos a empresas privadas.
Rodrigo Maia presidiu a Câmara dos Deputados de julho de 2016 a fevereiro de 2021, portanto, quatro anos e seis meses, um dos maiores mandatos da história da Casa. Sua passagem pelo segundo cargo mais importante da República - entre outras razões, por ter o direito de exercer, de forma monocrática, o poder de colocar em tramitação processo de impeachment do presidente - se deu num período conturbado, marcado por fatos dramáticos da história recente do país: a queda de Dilma Rousseff, as denúncias de corrupção da Lava-Jato contra dezenas de parlamentares, o advento da mais profunda e longa recessão vivida pela economia brasileira, a eleição de Jair Bolsonaro e seus dois primeiros anos de mandato, marcados pelo esgarçamento das relações entre os poderes Executivo e Legislativo.
A experiência deu a Maia a capacidade de transitar bem entre todos os partidos, da direita à esquerda. Ainda na gestão de Michel Temer (PMDB) na Presidência, negociou com os parlamentares uma medida considerada improvável: a adoção de um teto constitucional para estancar a evolução dos gastos públicos.
“Numa reunião difícil com os deputados, joguei a seguinte carta: ‘pessoal, ou a gente aprova a recriacão da CPMF [extinta em 2007 por decisão do Congresso], criando mais imposto, ou faz o teto e controla a despesa’”, revela. “Eles optaram pelo teto.”
Mesmo em meio a uma relação conflituosa com Bolsonaro, Maia conseguiu colocar o projeto de emenda constitucional da reforma da Previdência - a terceira desde 1998 - e aprová-la. Outros projetos de mudança institucional passaram em sua gestão, dando ao deputado notoriedade que ele ainda não experimentado em seus seis mandatos sucessivos. Seu nome passou a ser cogitado, então, para disputar a eleição presidencial deste ano.
Tanto Doria quanto Maia negam, mas essa rica experiência no parlamento fez do ex-presidente da Câmara um dos principais conselheiros políticos do governador tucano. No fundo, a ideia de não explicitar a natureza política do papel do deputado licenciado no governo paulista foi a maneira encontrada por Doria para proteger seu auxiliar.
Em fevereiro de 2021, no fim de seu terceiro mandato como presidente da Câmara - o primeiro foi tampão (de julho de 2016 a fevereiro de 2017) -, portanto, no auge de sua notoriedade no parlamento, Rodrigo enfrentou o impensável: traído pelo próprio partido, o DEM, não conseguiu eleger seu sucessor, o deputado Baleia Rossi (PMDB-SP).
De tão traumático, o episódio o levou a desfiliar-se do partido onde militou por 25 anos. Amizade de mais de duas décadas com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto acabou ali. Bolsonaro, seu desafeto, participou da operação para derrotar Maia. “O partido foi apressado. Fez isso para entrar no governo. Se tivesse apoiado meu candidato na Câmara, hoje Neto poderia ser o vice na chapa de Lula (PT) e não o Geraldo Alckmin (sem partido)”, diz o deputado licenciado.
Na coordenação do programa de governo, Rodrigo Maia, apesar do pouco tempo na função, definiu com Doria três eixos: o refortalecimento da democracia, uma vez que Bolsonaro, critica, pôs essa conquista em questão; o compromisso do país com o meio ambiente, uma vez que esse tema atualmente é pré-condição para a realização de investimentos no Brasil, e a adoção de um novo regime fiscal. Temas como desigualdade de gênero e racismo terão papel central na agenda.