Correio Braziliense, n. 22717, 01/06/2025. Economia, p. 7
Energia solar em área de várzea
A Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC) tornou-se a primeira agroindústria operada com sistema fotovoltaico e armazenamento de energia em baterias em uma área de várzea, região amazônica periodicamente alagada pelos rios. A instalação do sistema, inaugurado em maio, é fruto de uma parceria entre a Natura e a WEG, empresa catarinense de equipamentos eletroeletrônicos.
A tecnologia empregada consiste em um sistema fotovoltaico off grid, que utiliza painéis solares instalados na unidade produtiva para gerar energia. O excedente dessa produção será armazenado em baterias (BESS - Battery Energy Storage System), garantindo eletricidade mesmo à noite ou em dias de menor incidência solar.
Um dos grandes desafios no interior da Amazônia é garantir energia limpa, pois muitas comunidades ainda dependem de óleo diesel. O sistema BESS permite o armazenamento e o uso contínuo da eletricidade gerada, reduzindo significativamente a necessidade do gerador a diesel, que passa a ser utilizado apenas como alternativa emergencial. "Este sistema é crucial, porque a localização da agroindústria é isolada e não possui conexão com a rede elétrica", destacou Alexandre Eiji Amano, gerente de Sustentabilidade da WEG.
"Em um sistema solar sem bateria e sem conexão à rede, a energia só é gerada e utilizada enquanto houver sol. Com a integração do sistema de bateria, a configuração muda radicalmente. O BESS se torna o sistema principal, e o gerador a diesel passa a ser apenas o backup, entrando em operação somente para garantir a segurança energética total caso os sistemas principais falhem", explicou Amano.
Francisco Malheiros, presidente da ATAIC, definiu a iniciativa como "histórica". Segundo ele, a expectativa é que, com a nova estrutura energética, a associação consiga aumentar a produtividade e sirva de modelo para outras iniciativas semelhantes na Amazônia e em outras regiões do Brasil. "Não é só um modelo de indústria, mas de residência e bem-estar para centenas de famílias", disse.
Logística
A área de várzea está sujeita a inundações diárias e solo instável, diferente das fábricas em terra firme. Foram dois anos de planejamento até a inauguração do projeto, que enfrentou inúmeras dificuldades logísticas. A carga saiu de Santa Catarina e atravessou o Oceano Atlântico até chegar à região em um processo multi-modal.
"O transporte dos equipamentos para a instalação, como os painéis solares e outros componentes da agroindústria, foi particularmente difícil. No total, três toneladas de equipamento foram transportadas", descreveu Daniel Godinho, diretor de Sustentabilidade e Relações Institucionais da WEG.
A ATAIC é a 20ª agroindústria em parceria com a Natura, mas a primeira autossuficiente em produção de energia limpa. A iniciativa oferece um modelo replicável para outras regiões da Amazônia e comunidades isoladas. Para Angela Pinhati, Diretora de Sustentabilidade da Natura, a iniciativa é uma demonstração prática do potencial da bioeconomia. "É uma maneira de fortalecer nosso plano de industrialização sustentável na Amazônia e reconhecer o protagonismo das comunidades tradicionais na conservação da floresta em pé", disse.
O secretário de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Rodrigo Rollemberg, avaliou que a iniciativa reflete o potencial do país para se tornar um “paraíso de investimentos verdes”. “É uma demonstração das enormes oportunidades que o país oferece para enfrentar as mudanças do clima e o desenvolvimento da sociobioeconomia.”
Mudanças climáticas
As mudanças climáticas, manifestadas pela alteração nos regimes de chuva e seca, são percebidas como a principal ameaça atual, afetando diretamente a floresta e a vida das comunidades no Arquipélago do Marajó. "Especificamente, nos últimos anos, na época que antes era de muita chuva, agora faz sol, e na época de muito sol, chove", contou Josineide Malheiros, gestora ambiental e fundadora da ATAIC.
Alterações nos padrões de chuva e seca afetam as frutas e o rio, do qual dependem para diversas atividades. Segundo ela, essas alterações no clima já impactam o trabalho das comunidades na floresta. "Por exemplo, quando o verão é forte, as frutas não caem das árvores, elas ficam lá em cima, seguras", explicou Josineide.
Outra questão ambiental de grande preocupação é a potencial exploração de petróleo na região da Foz do Amazonas, região intimamente interligada. Para as comunidades da região, a discussão é vista como algo distante, mas que eventualmente chegará.