Valor Econômico, v. 22. n. 5422, 21/01/2022, Internacional, A11
Covid-19 expôs de modo perverso as limitações de crescimento da AL
Financial Times
Pode parecer difícil de acreditar, mas Brasil e México já foram, no passado, a inveja do mundo. Suas economias cresceram mais de 6% ao ano de 1951 a 1980, quase com a mesma rapidez que as de Coreia do Sul e Japão, os expoentes de crescimento do pós-guerra. Desde a crise da década de 1980, a América Latina ficou extremamente para trás. Nos últimos anos, afundou para o limite mais baixo da categoria dos mercados emergentes, com desempenho inferior ao do Oriente Médio e da África Subsaariana.
A incapacidade da América Latina de crescer gera discussões acaloradas sobre as medidas mais adequadas a tomar e muitas teorias. A baixa produtividade, precariedade da infraestrutura, corrupção e instabilidade política são temas recorrentes. As críticas se voltam tanto para os governos de esquerda do início da década de 2000 - por não terem investido parte suficiente da riqueza gerada pela alta dos preços das commodities na construção de uma infraestrutura competitiva e por não terem fornecido educação e saúde de alta qualidade - quanto para a direita, responsabilizada por fazer pouco para enfrentar a desigualdade arraigada, promover competição e tornar a taxação mais justa.
A covid-19 expôs de maneira perversa as limitações da América Latina: o impacto conjunto da pandemia sobre a saúde e a economia foi o pior do mundo. Agora o clima de mudança está no ar. Em uma série de eleições importantes, os eleitores da região se voltaram contra os governos e optaram por figuras novas radicais. Peru e Chile deram um grande salto para a esquerda. Equador, Uruguai e Argentina voltaram a se inclinar para a direita. Brasil e Colômbia votarão neste ano.
Felizmente, a abundância de recursos naturais da América Latina implica em abundância de oportunidades. A região é rica em dois metais fundamentais para a eletrificação: cobre e lítio. Por abrigar uma das áreas do mundo mais expostas ao sol e aos ventos, poderia gerar gigawatts de energia elétrica de custo baixo voltada para produzir e exportar hidrogênio verde.
A região atravessa um surto de crescimento tecnológico tão grande que, no primeiro semestre do ano passado, atraiu mais capital privado do que o Sudeste Asiático. O maior banco digital autônomo do mundo, o Nubank, é brasileiro. O minúsculo Uruguai é um grande exportador de software.
Uma investida dos EUA para transferir a produção para lugares mais próximos de seu território poderá representar um empurrão para a indústria de transformação do México e da América Central. O Brasil fomentou o desenvolvimento da agricultura de alta tecnologia mundialmente competitiva.
Para explorar plenamente essas oportunidades, a América Latina tem de adotar soluções pragmáticas que deixem para trás a discussão ideológica. Isso deveria começar a partir do axioma de que a riqueza precisa primeiro ser criada para ser compartilhada. Um setor privado florescente, um governo em pleno funcionamento, serviços públicos de qualidade, o Estado de Direito e o investimento estrangeiro são, todos, elementos essenciais para a obtenção desse fim.
A taxação em alguns países é baixa demais, mas elevá-la só será proveitoso se a renda apurada produzir cidadãos mais saudáveis, mais bem instruídos e mais produtivos e economias competitivas. Com frequência na América Latina, o aumento de gastos do governo produziu folhas de pagamento infladas e mais corrupção, e não resultados melhores. Cidadãos da região estão inquietos e a crença em presidentes eleitos está sendo exageradamente posta à prova.
Durante a última onda de crescimento, o México era um Estado unipartidário e o Brasil, na maior parte do tempo, uma ditadura militar. Para que a região evite flertar de novo com o autoritarismo populista, seus novos dirigentes precisam urgentemente mostrar que a democracia é capaz de gerar crescimento sólido, sustentável, e uma prosperidade compartilhada. Isso significa abandonar o dogmatismo e buscar o consenso em torno de políticas de longo prazo para erigir governos eficientes, fortalecer o Estado de Direito e criar economias mundialmente competitivas. O tempo está se esgotando.