O GLOBO, n 32.352, 05/03/2022. Economia, p. 13
PRESSÃO NOS ALIMENTOS
Eliane Oliveira e Ivan Martínez-Vargas
Rússia pede para suspender exportação de fertilizantes. Brasil diz que não deve ser afetado
A Rússia pediu aos produtores locais de fertilizantes que interrompam as exportações. A medida é resultado das dificuldades logísticas enfrentadas em razão das sanções econômicas impostas pelo Ocidente após a invasão da Ucrânia. O Ministério da Indústria e Comércio russo recomenda a interrupção das vendas ao exterior até que o transporte seja normalizado, em uma medida com potencial para elevar custos do setor agrícola e, por consequência, os preços dos alimentos no mundo todo. Em fevereiro, antes do início da guerra, os alimentos já haviam registrado alta de 24% em relação ao ano anterior, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.
O Brasil tem estoque de fertilizantes só até junho, e as importações do produto da Rússia respondem por 23% das compras. É também o quarto maior consumidor global de fertilizantes. Ainda assim, o Ministério da Agricultura afirmou em nota que a recomendação do governo russo“ao que parece, não está afetando ainda o comércio de fertilizantes para o Brasil. O Ministério recebeu a informação de embarque de fertilizantes, ocorrido hoje (ontem), da empresa russa Acron para o Brasil”.
SEGUNDO MAIOR PRODUTOR
Fertilizantes como potássio e nitrogênio são transportados principalmente por trens ou navios. Desde a invasão da Ucrânia, grandes cargueiras, operadoras de navios, como Maersk e MSC, por exemplo, suspenderam serviços nos portos russos. Em razão disso, o país não consegue embarcar o produto.
A nota do Ministério da Indústria e Comércio salienta que a recomendação vale “até que as transportadoras retomem o trabalho ordenado e forneçam garantia para entregar quantidades contratuais de fertilizante russo”. Segundo o ministro da pasta, Denis Manturov, na situação atual, os produtores agrícolas na Europa e noutros locais não conseguem receber quantidades contratuais de fertilizantes.
“Isto ocorre inegavelmente o risco de causar colheitas ruins e, consequentemente, alimentos para países da Europa Ocidental e Oriental, América Latina, Sul e Sudeste Asiático. O problema é que é muito difícil, se não completamente impossível, substituir o fornecimento de fertilizantes russos ”, diz a nota.
A Rússia é o segundo maior produtor global de fertilizantes à base de potássio. É também um grande fornecedor mundial de todos os tipos de adubos, fertilizantes e nutrientes de baixo custo.
Embora se trate de um problema de transporte, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Antonio Galvan, disse não ter dúvida de que o Brasil não será afetado:
—Contra o Brasil não tenho dúvida de que a Rússia não cortou fertilizantes e sim de meia dúzia de países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Para José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), porém, a decisão da Rússia pode derrubar a produção e a produtividade do agronegócio brasileiro.
— A decisão da Rússia formaliza situação que já ocorria na prática, porque com os bancos russos sem acesso a o sistema (de pagamentos) Swift já era inviável comprar produtos. Infelizmente, os fertilizantes se tornaram uma moeda de troca geopolítica —diz ele.
‘CÉU É O LIMITE’ PARA PREÇOS
Para ele, o agronegócio pode pressionar Bolsonaro para que assuma posição mais enfática em prol de um cessar fogo. O setor é uma das bases de sustentação do governo e pode ser estratégico em ano eleitoral. Ainda assim, diz não ver muita perspectiva de que isso ocorra:
— O país é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, mas não se preocupou em desenvolver a indústria de fertilizantes. É impossível no curto prazo. Se começar agora, teria efeito em, no mínimo, três anos. E é improvável que outros fornecedores, China, Marrocos e Canadá consigam suprir o mercado brasileiro. O céu é o limite para o aumento de preços e insumos.
O Brasil é o maior exportador global de soja, café e açúcar e, se sua produção agrícola for afetada, isso fará os preços de alimentos subirem no mundo todo. Para Welber Barral, sócio da BMJ consultores, a decisão do governo russo tem impacto maior no Brasil do que na Europa, que produção local de insumos como potássio e ureia.
— Chama a atenção usar fertilizantes, que não são tão vendidos para a Europa; a dependência do Brasil nessa área é maior. Temos estoques para essa safra, mas uma restrição de oferta vai nos afetar —afirma.
O Brasil compra principalmente potássio da Rússia, mas também ureia, em menor proporção. Neste último, há compras ainda de China e Bélgica.
Com o conflito, governos de diversos países estão tomando medidas para proteger o abastecimento doméstico de alimentos.
A Hungria está proibindo as exportações de grãos, disse seu ministro da Agricultura ao canal de TV RTL ontem. Argentina e Turquia fizeram movimentos para aumentar seu controle sobre os produtos locais. E a Moldávia, embora pequena, interrompeu as exportações de trigo, milho e açúcar a partir deste mês.