O GLOBO, n 32.352, 05/03/2022. Economia, p. 14
PIB cresce 4,6% em 2021 e compensa perdas da pandemia, após queda histórica em 2020
Carolina Nalin e João Sorima Neto
No último trimestre, economia avança 0,5%, acima do esperado, e país sai da recessão técnica. PIB per capita e consumo das famílias ainda não se recuperaram
A economia brasileira cresceu 4,6% em 2021, avanço que permitiu compensar as perdas provocadas pela pandemia, voltando aos patamares de 2019, informou ontem o IBGE. A alta mais forte do Produto Interno Bruto (PIB) veio depois da queda histórica de 3,9% de 2020. Mas esse desempenho forte do PIB não deve se repetir, dizem especialistas, com a guerra na Ucrânia, no exterior, desemprego, inflação e juros altos por aqui.
O PIB está 0,5% acima do último trimestre de 2019, mas a expansão não foi suficiente para repor as perdas do PIB per capita que chegou a R$ 40.688,1, alta de 3,9% sobre 2020, mas ainda abaixo do patamar de antes da pandemia. Mesmo com todas as incertezas, a alta de 0,5% no último trimestre do ano passado, no topo das expectativas, tirou o país da recessão técnica (entre abril e setembro) e pode afastar o risco de mais um tombo este ano. Analistas começam a rever para cima as previsões de 2022.
Na XP, não fosse o conflito ter elevado as incertezas internacionais, haveria revisão de alta para o PIB este ano. Rodolfo Margato, economista da XP, mantém a estimativa de crescimento zero em 2022, mas reconhece que alguns dados da atividade econômica vieram mais positivos.
— Não seria uma revisão tão forte, afinal estamos num ciclo de alta de juros, o maior nos últimos dois anos. Mas seria um crescimento moderado —afirma. O crescimento no ano foi puxado pelos serviços (4,7%) e pela indústria (4,5%). A agropecuária, que havia sido a estrela em 2020, recuou 0,2% em 2021, com estiagem prolongada e geadas, que afetaram as safras de café e milho.
Apesar da queda da agropecuária no ano, os preços das commodities fizeram a participação do setor subir de 6,8% para 8,1% no PIB. Este ano, com o conflito, há muita incerteza sobre o desempenho do setor, tão dependente dos fertilizantes produzidos na Rússia. A reabertura da economia impulsionou os serviços. A construção civil, após cair 6,3% em 2020, subiu 9,7% em 2021. O crescimento da indústria extrativa fez a participação do setor industrial passar de 20,5% para 22,5% no PIB no ano passado. —Os preços das commodities cresceram tanto que esses setores ganharam peso na economia — diz Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.
ALGUM BENEFÍCIO
O consumo das famílias, com desemprego e inflação altas, cresceu 3,6%, sem conseguir voltar aos mesmos níveis de 2019, assim como o consumo do governo.
—Também vimos que no mercado de trabalho, apesar do crescimento da ocupação, a massa salarial, muito por conta da inflação, continuar afetada negativamente. Isso impacta o poder de compra das famílias — completa Rebeca. Os investimentos avançaram 17,2%, favorecidos pela construção e pela produção interna de bens de capital. É o maior avanço desde 2010. Já os impostos sobre produtos influenciaram positivamente o avanço do PIB, ao crescer 6,4% em 2021. — Tem muito a ver com desempenho do ICMS e também da Cide (impostos que incidem sobre o preço dos combustíveis) — ressalta Rebeca.
Há bancos e consultorias que estimam recessão (em torno de -0,5%) para 2022 diante da desafiadora conjuntura macroeconômica. Mas as previsões estão melhorando. Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, projeta queda de 0,2% do PIB em 2022. No entanto, passou a ver possibilidade de viés ligeiramente para cima (-0,1%).
Ela avalia que o Brasil pode se beneficiar, em parte, do conflito entre Rússia e Ucrânia, com a subida de preços das nossas exportações: — Quando teve a crise entre China e EUA, praticamente zeramos os nossos estoques de soja e exportamos 4 milhões de toneladas a mais de soja. Hoje os estoques estão na casa dos 5,2 milhões de toneladas. Isso pode ter um efeito mais relevante na nossa economia.
O J.P. Morgan revisou a projeção de PIB de -0,4% para -0,1% em 2022. Apesar de prever expansão de 0,6% no primeiro trimestre deste ano, o banco revisou para baixo o segundo e o terceiro trimestres devido ao conflito.
Lucas Maynard, economista do Santander Brasil, manteve a estimativa de crescimento de 0,7% para este ano, mas não descarta subir a projeção. Ele observa que os efeitos da reabertura do setor de serviços ainda não foram totalmente sentidos em 2021 e devem aparecer pelo menos neste início de ano, principalmente os setores culturais, bares e restaurantes que ainda não voltaram totalmente à normalidade.
— O primeiro trimestre e o segundo ainda devem dar alguma folga este ano. E apesar da seca no sul, o setor agro tem tendência favorável. A questão dos fertilizantes deve ser sentida mais na safra de 2023. Por isso, não descartamos uma revisão altista para nossa previsão de crescimento de 0,7% para este ano. Será preciso observar o que vai acontecer no segundo semestre — diz Maynard.
Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, observa que a volta do setor de serviços foi importante para o crescimento de 4,6% da economia ano passado. E a alta mais forte do que a esperada no fim do ano fez a economia começar 2022 num ritmo mais forte.
—Com isso, há risco de melhorarmos nossa projeção para o PIB deste ano, que prevê queda de 0,5% da economia —diz Barbosa. O economista lembra que há estímulo fiscal, com governos estaduais e municipais expandindo gastos e o governo federal cortando impostos. Apesar do risco fiscal, as medidas estimulam a atividade econômica. Barbosa observa que o preço das commodities já vinha subindo antes do conflito na Ucrânia, beneficiando países exportadores como o Brasil.
CONSUMO VOLTANDO
“Aos poucos, enxugando muito, nós estamos voltando a gastar com coisas que deixamos para trás, mas ainda com bastante restrição” _ Denise Trindade, assistente administrativa
No cenário interno, o aumento da conta de luz apertou o orçamento da assistente administrativa Denise Trindade, de 41 anos, mas aos poucos alguns gastos, como ida ao cabeleireiro e restaurantes, começam a voltar. Ela mora com o pai, Lélio, a tia Janir e o filho Victor
— Aos poucos, enxugando muito, nós estamos voltando a gastar com coisas que deixamos para trás, mas ainda com bastante restrição. Eu aproveito as promoções para não deixar de comprar nada (no mercado), mas não consigo ver um sinal de melhora. Viagens e restaurantes passaram a ser artigos de luxo, porque a prioridade continua sendo a alimentação. Serviços secundários como salão de beleza e gastos com roupas ficaram em segundo plano. (Colaborou Ana Flávia Pilar, estagiária sob supervisão de Danielle Nogueira)