O GLOBO, n 32.352, 05/03/2022. Política, p. 06

Moro rompe com aliado após vazamento de áudio com falas machistas

Bianca Gomes e Guilherme Caetano


Da Ucrânia, Arthur do Val, do MB L, afirmou a amigos que ucranianas “são fáceis porque são pobres' e citou refugiadas

A divulgação de áudios de conteúdo sexista atribuídos ao deputado estadual Arthur do Val (Podemos), conhecido como Mamãe Falei, gerou uma crise política ontem para o candidato ao governo paulista e que respingou na disputa presidencial. O ex-ministro Sergio Moro (Podemos), pré-candidato ao Planalto, anunciou horas depois do vazamento que rompeu com o deputado, afirmando que não o quer em seu palanque. Moro havia acertado uma aliança com o MBL e dividiria palanque com Do Val em São Paulo.

Além disso, o Podemos abriu um procedimento disciplinar contra Do Val, que é integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), e deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) afirmaram que vão entrar com representação no Conselho de Ética da Casa.

Do Val viajou durante o carnaval para uma região de fronteira da Ucrânia para, segundo ele, ajudar na resistência contra a invasão russa e registrar em suas redes a realidade da guerra. Anteontem, ele havia publicado uma foto afirmando estar aprendendo a fazer coquetéis molotov. Da Ucrânia, em quatro áudios enviados a colegas do MBL, Do Val fez diversos comentários sobre as mulheres ucranianas e do Leste europeu de modo geral, como revelou o colunista Lauro Jardim. O deputado disse aos amigos, entre outras coisas, que as ucranianas “são fáceis porque são pobres”.

— E elas olham, hein. E vou te dizer: são fáceis, porque elas são pobres. E aqui, cara, minha carta do Instagram cheio de inscritos funciona demais, funciona demais. Não peguei ninguém, mas eu colei em duas “minas”, e é inacreditável a facilidade. Essas “minas” em São Paulo, você dá bom dia e elas iam cuspir na sua cara —afirmou o deputado em áudios obtidos pelo GLOBO.

“MELHOR QUE BALADA”

Para elogiar atributos físicos das mulheres do Leste da Europa, fez comparações com as brasileiras e afirmou que “a fila das refugiadas é melhor que a fila da melhor balada de São Paulo”. E afirmou ter aprendido táticas com o coordenador do MBL Renan dos Santos, que o acompanha na viagem.

— Passei na fronteira por 12 policiais deusas. A fila de refugiadas, estou sem palavras, só deusas. É inacreditável. Se pegar a fila da melhor balada do Brasil não chega aos pés da fila das refugiadas aqui — disse o parlamentar em outra mensagem de voz. — O Renan faz uma viagem “tour de blonde”, viaja os países só para pegar louras. Ele tem técnicas, me deu dicas. Você nunca pode ir para cidades litorâneas. Tem que ir para as cidades normais, pegar as minas no mercado, na padaria. Esses cidades mais pobres são as melhores. Tenho 35 anos e nunca vivi isso.

A divulgação dos áudios gerou de imediato uma repercussão de alto custo político nas redes. Do Val foi um dos termos mais citados no Twitter no Brasil na noite de ontem, com a maioria das mensagens criticado o teor machista e a falta de sensibilidade com a população local. O MBL afirmou estar analisando o caso. O deputado até o final da noite de ontem ainda não havia se posicionado porque embarcara de volta para o Brasil horas antes de o caso vir à tona.

Seu principal aliado no plano nacional, a quem daria palanque em São Paulo, preferiu não esperar a chegada de seu voo. O pré-candidato do Podemos, Sergio Moro, que fechou uma aliança com o MBL e apoiaria Do Val ao governo paulista, divulgou uma nota com duras críticas e anunciando o rompimento com o aliado. Há três dias, Moro havia elogiado a atitude de Do Val de viajar até a Ucrânia.

“O tratamento dispensado às mulheres ucranianas refugiadas e às policiais do país é inaceitável em qualquer contexto. As declarações são incompatíveis com qualquer homem público”, afirmou Moro. “Jamais dividirei meu palanque e apoiarei pessoas quem têm esse tipo de opinião e comportamento. Espero que meu partido se manifeste brevemente diante da gravidade que a situação exige”, continuou o ex-juiz.

A presidente do Podemos, deputada Renata Abreu, afirmou que o partido repudia as declarações de Arthur e que instaurou um procedimento disciplinar interno para apurar os fatos. “(As declarações) não se resumem ao completo desrespeito à mulher, seja ucraniana ou de qualquer outro país, mas de violações profundas relacionadas a questões humanitárias”, afirmou, também em nota.

Nos bastidores, integrantes da campanha já defendem a abertura de um processo na Comissão de Ética do partido, o que pode resultar na expulsão de Arthur. Recém-filiado ao Podemos, o ex-procurador Deltan Dallagnol classificou as frases de Do Val como “inacreditáveis e inaceitáveis”.

Além de seus próprios aliados, o repúdio às declarações de Arthur do Val reuniu políticos da esquerda e bolsonaristas.

Colegas de Casa, os deputados estaduais Gil Diniz (PL) e Monica Seixas (PSOL) defenderam a cassação do mandato de Arthur e disseram que vão entrar com uma representação no Conselho de Ética da Alesp.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) disse que o comportamento de Do Val é “triste e vergonhoso”, enquanto a presidente do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann, disse que o áudio é “uma das coisas mais deploráveis que já se viu”.

Ex-integrante do MBL, o vereador Fernando Holiday afirmou que acha “difícil acreditar que um ex-colega de movimento se colocou nessa situação”.

A deputada Isa Penna (PSOL), que recentemente sofreu um caso de assédio dentro do plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo, afirmou que iria entrar com uma representação na Justiça contra o parlamentar. “Todo dia um homem com poder faz um escárnio imensurável de violência e misoginia. É essa pessoa que vocês querem que a gente conviva no parlamento?”, escreveu Penna no Twitter.