O GLOBO, n 32.352, 05/03/2022. Política, p. 04

VOO SOLO

Bernardo Mello e Sérgio Roxo


Em sete estados, vices se lançam às urnas e atrapalham planos de sucessão

O impasse na candidatura à sucessão na Bahia elevou para sete o número de estados em que aspirações políticas de vice-governadores podem gerar conflito com os planos dos atuais chefes dos Executivos. Ao todo, em nove estados o segundo na linha de sucessão dá sinais de que testará seu nome nas urnas este ano — há cenários consensuais apenas em São Paulo, com Rodrigo Garcia (PSDB), e no Ceará (PDT), com Izolda Cela. Os problemas ocorrem por divisões na base de governadores ou por rupturas entre vice e governador. 

Na Bahia, o entrave tem impacto na corrida presidencial por atrapalhar o palanque do ex-presidente Lula (PT) no estado. O problema veio à tona após o senador Jaques Wagner (PT-BA) anunciar sua desistência de concorrer ao governo estadual. Segundo interlocutores de Wagner, ele já vinha ensaiando a decisão nos últimos meses. O movimento casou com a intenção do governador Rui Costa, também do PT, de se lançar ao Senado, o que exige sua renúncia no início de abril. Com isso, o governo ficará até a eleição a cargo do vice João Leão (PP), que declarou repetidas vezes no ano passado ter o desejo de lançar seu nome ao Executivo ou ao Senado. 

Lideranças petistas, contudo, tentam convencer o senador Otto Alencar (PSD), desalojado por Costa da candidatura ao Senado, a concorrer ao governo —desafio que ele hesita em assumir. Antes de Wagner oficializar sua saída, Alencar chegou a admitir internamente a chance de concorrer a governador. O ex-presidente Lula (PT) também havia indicado o aval para a troca. Porém, em reunião na quinta-feira, Alencar comunicou a Wagner e Costa sua intenção de tentar novo mandato com o senador. Pesaram para isso a pressão de alas do PT local para ter um nome do partido na disputa pelo governo e os apelos da cúpula PSD para ele manter sua ideia inicial.

—É claro que Otto tem prioridade, mas não adianta decidir sem negociar com toda a base. Havia uma campanha (de Wagner) que vinha sendo construída há um ano. A indefinição de Otto logicamente traz ainda mais dúvidas – disse a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), que integra a base do governo Costa. 

Uma alternativa defendida por aliados de Wagner e de Otto é que o PT apresente nova candidatura ao governo, numa possível chapa com o PP, e que o senador do PSD tente a recondução, como deseja. Nesse caso, Costa precisaria desfazer o plano recém apresentado de tentar o Senado, e definir se renunciaria ainda assim em favor de Leão. Um nome ventilado internamente pelo PT para a sucessão é o do atual secretário estadual de Relações Institucionais, Luiz Caetano, tido como um dos principais aliados de Wagner no governo Costa.

EX-CARLISTAS

Na quinta-feira, em gesto para atrair o apoio do PP, Alencar fez uma visita a João Leão, que não pode concorrer a vice pela terceira vez, mas pode indicar um correligionário para o posto. A ideia de uma chapa com PSD e PP ainda não foi assimilada por setores do PT, que nesse cenário abriria mão de tentar seguir à frente do quarto maior colégio eleitoral do país. 

Alencar e Leão foram aliados do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, o ACM, e embora tenham diluído com o passar do tempo o rótulo de “carlistas” não são vistos como nomes ligados à esquerda. Após o encontro de quinta-feira, o deputado federal Cacá Leão (PP-BA), filho do vice-governador, afirmou à rádio “Pituã FM” condicionou o apoio a Alencar a uma decisão conjunta de seu grupo político, e classificou Wagner como o “maior político do estado depois de ACM, talvez ao lado dele”. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto é tido como principal adversário do PT na eleição ao governo este ano.

OS MOVIMENTOS DOS VICES

Na disputa pela sucessão, vice-governadores de sete estados podem gerar conflito com planos do chefe do Executivo  Brandão assumirá o governo em abril com a renúncia de Dino, que disputará o Senado. A base do governador está rachada, já que o senador Weverton Rocha (PDT) também é pré-candidato, e busca apoio de Lula.

eleição. O número 13 (do PT) será competitivo com Lula, só que Wagner não quer concorrer. Não tenho dúvida da união do grupo, e vejo que Otto e Leão entendem o papel do PT na chapa majoritária. Aqui na Bahia falamos que a base do governo une “azuis e vermelhos”, então não vamos ter uma chapa só com azul —afirma o deputado Afonso Florence (PT-BA).

CONVERSAS EM ABERTO

Há outros estados, como Maranhão e Rio Grande do Sul, em que as aspirações do vice não garantiram aval do grupo governista. No primeiro, Carlos Brandão (PSB) herdará o governo em abril de Flávio Dino, pré-candidato ao Senado, mas há uma disputa entre ele e o senador Weverton da Rocha (PDT), também postulante ao Executivo, pelo apoio do ex-presidente Lula, o que pode ter reflexos na base. 

No Rio Grande do Sul, o vice Ranolfo Vieira Jr. se filiou ao PSDB para ser sucessor de Eduardo Leite, e agora avalia uma migração para o PSD para acompanhar um eventual movimento do governador, cotado como presidenciável. Os tucanos, por outro lado, avaliam também nomes como o da prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, para concorrer. Outro partido da base, o MDB, planeja ainda lançar candidato.

No Tocantins e na Paraíba, os vice-governadores Wanderlei Barbosa (PP) e Lígia Feliciano (PDT) romperam com os chefes do Executivo e planejam candidaturas com perfil de oposição. Barbosa atua nos bastidores pelo impeachment do governador afastado Mauro Carlesse. Lígia, que rompeu com João Azevêdo (PSB), negociou uma filiação ao PT, mas esbarrou na pré-candidatura ao Senado do ex-governador Ricardo Coutinho (PT), também desafeto de Azevêdo.

— Ela mantém sua candidatura, e nós seguimos conversando. Não vejo espaço para ela retornar ao governo, nem para se aliar com outros grupos —disse Coutinho. 

No Amapá, onde também houve rompimento, o vice Jaime Nunes (Pros) ainda mantém em aberto a chance de receber apoio de Waldez Góes (PDT), mas o cenário é tido como remoto. Nunes pode parar no palanque de opositores de Góes, como o pré-candidato ao Senado, João Capiberibe (PSB). 

No Mato Grosso do Sul, o vice Murilo Zauith (União) pode se alinhar à oposição do sucessor escolhido, o secretário estadual de Infraestrutura Eduardo Riedel.