O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Política, p. 07
Aliança não é garantia de alinhamento automático do Centrão com Bolsonaro
Eleito em 2018 com o discurso da antipolítica, apesar da trajetória de 28 anos com mandato na Câmara dos Deputados, o presidente Jair Bolsonaro iniciou seu governo investindo nas bancadas temáticas, como a ruralista, a evangélica e a da bala, para tentar aprovar os projetos de seu interesse no Congresso, sem negociar com as cúpulas partidárias. Aos poucos, no entanto, foi se rendendo e acabou até aderindo, como filiado ao PL, expoente do Centrão, ao grupo político que execrava na campanha. Esse pragmatismo, porém, não resultou em céu de brigadeiro para o governo no Congresso — tampouco em alinhamento automático ao projeto de reeleição.
No caso do Legislativo, o exemplo mais recente foi a aprovação, pela Câmara, do projeto que legaliza o jogo no país. Apesar de Bolsonaro ter anunciado que vetará a proposta, se for ratificada pelo Senado, o PP, de Ciro Nogueira (Casa Civil), e o PL, partido do próprio presidente, votaram a favor. Outra amostra de que os interesses não são necessariamente coincidentes é o empenho do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em colocar para votar o projeto das Fake News, que criminaliza a disseminação em massa de mensagens com desinformação e cria regras de conduta para plataformas digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagem.
Quanto à campanha da reeleição, Ciro Nogueira, que além de ministro da Casa Civil é presidente licenciado do PP, liberou os diretórios estaduais a usarem como quiserem o tempo de TV a que têm direito no primeiro semestre, inclusive contra Bolsonaro. Outro pilar do Centrão, o Republicanos ameaça, inclusive, desembarcar. O partido, que comanda o Ministério da Cidadania, responsável pelo Auxílio Brasil, está insatisfeito com a esperada migração de bolsonaristas para o PL na janela partidária. A expectativa era que parte deles fosse para o Republicanos e ajudasse a puxar votos para o partido na eleição de outubro.