Valor Econômico, v. 22. n. 5423, 22, 23, 24/01/2022, Brasil, A2

Comprometimento acelerará melhora na educação do país, dizem especialistas

Por Renata Chiurciu
 

A melhoria da educação brasileira não precisa de 20 ou 30 anos para ocorrer. A situação pode mudar em apenas dois mandatos do poder Executivo, se houver comprometimento com a execução das políticas públicas. A conclusão é de Priscila Cruz, presidente-executiva e cofundadora da organização da sociedade civil Todos Pela Educação. Ela participou na sexta-feira da Live do Valor ao lado de Ronaldo Lemos, advogado especialista em tecnologia e presidente da Comissão de Tecnologia e Inovação da OAB-SP, debateram os desafios da educação em 2022.

A live encerrou a semana temática sobre o Movimento Led - Luz na Educação, parceria da área de Valor Social da Globo e do Valor Econômico.
“Temos uma ideia equivocada no Brasil de que a gente precisa de 20, 30 anos para conseguir mudar o patamar da educação pública brasileira. Com tecnologia, boa formação de professores e com tempo integral nas escolas conseguimos fazer isso em dois mandatos, oito anos”, afirmou.

“Gosto sempre de lembrar que a melhor forma de prever o futuro é ver o que a gente está fazendo na educação no presente”, comentou Ronaldo Lemos. Para ele, o ensino à distância na educação básica e fundamental, e até para o ensino médio, não funciona, porque os alunos ficam entediados e dispersos. Isso significa um atraso educacional enorme.

Para Priscila, 2022 será um ano muito difícil para a Educação. Além da pandemia, que tirou os alunos da escola, faltou apoio do governo federal a Estados e municípios no enfrentamento dos efeitos da covid-19 sobre a educação básica, com atraso na vacinação e consequentemente da reabertura das escolas públicas.

“Isso criou uma tempestade perfeita muito ruim pra a educação principalmente para os alunos mais pobres. Metade dos alunos com 8 anos eram analfabetos antes da pandemia, hoje são 75%. A aprendizagem caiu e a evasão escolar aumentou. Estamos vivendo um momento muito crítico. Eu diria que desde o período pós constituição é o momento mais grave da educação brasileira”, disse.

Ela prevê que neste ano eleitoral o debate político deve se sobrepor ao educacional e que será ainda mais difícil que a educação seja de fato uma prioridade, mas ela otimista em relação aos anos seguintes, com a renovação de alguns mandatos e trocas de comando em cargos no Executivo, com presença de pessoas compromissadas com a Educação.

Lemos considera que o “home office” no ensino requer infraestrutura de conectividade, que não chega a boa parte da população, especialmente aos alunos do ensino público. “Temos que lembrar que mesmo em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro tem vastas áreas das cidades que não tem conexão de celular boa, onde não chega a internet fixa.”

Ele afirmou que falta infraestrutura no Brasil e que o futuro da Educação passa pelo digital e pelo acesso à internet e que para que isso ocorra com impacto social é preciso ter todas as escolas públicas urgentemente conectadas.

Sobre a inclusão digital na educação e iniciativas positivas para virar o jogo no futuro, Priscila afirmou que há duas grandes avenidas a percorrer no país. Uma é a de continuidade e aperfeiçoamento. A outra é a das novas políticas, entre elas a de inovação e outras que ainda não foram consolidadas, como uma política nacional de atenção à primeira infância.

Ela também chamou atenção para a educação profissional com um olhar para o mundo digital. “O Brasil perde muito tempo em não investir em Educação para o mundo digital, para a economia digital porque o país precisa e os jovens querem.”

Lemos defende que para reduzir a grande desigualdade digital deve haver coordenação entre os investimentos em infraestrutura e conectividade no Brasil. Segundo ele, a falta de coordenação faz com que o Brasil gaste muito e gaste mal, porque muitas vezes há duplicidade de investimentos.

Priscila enfatizou a importância da formação de professores, com incentivo ao aperfeiçoamento contínuo, plano de carreira e acesso a recursos tecnológicos na escola. Ele defendeu também uma revisão da estrutura de ensino de forma a tornar o aprendizado mais fluido, com currículo menos “engessado”, mais inovador e interdisciplinar - o que também exige preparação dos professores.

Lemos disse que para além do esforço de ter uma educação formal bem feita, com um braço digital, no mundo que a gente vive hoje é possível aprender qualquer coisa on-line e gratuitamente. “O conhecimento está hoje na internet, disponível para qualquer pessoa”, disse. Para ele, é preciso criar no país a cultura de que o aprendizado não se dá apenas na escola e que deve ser permanente.

Prislica Cruz defende maior participação das famílias, se envolvendo com a escola e dos cidadãos utilizando o poder do voto e usando sua voz para pressionar os governos. Para ela, os grandes empresários deveriam aproveitar seu acesso privilegiado aos governantes para pressionar por melhorias na educação.