O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Política, p. 08

Após ofender ucranianas, Arthur do Val desiste de candidatura em SP

Cleide Carvalho, Eduardo Gonçalves, Eliane Neves, Lucas Altino e Julia Lindner


Repúdio à áudios de teor sexista de deputado uniu aliados, opositores e a comunidade ucraniana, que pede a cassação

Após o vazamento de áudios em que fala que as ucranianas são “fáceis porque são pobres”, o deputado estadual Arthur do Val (Podemos-SP), conhecido como Mamãe Falei, informou que abriu mão de sua candidatura ao governo de São Paulo. Em um comunicado em suas redes sociais, o parlamentar afirma que suas falas não são corretas “com as mulheres brasileiras, ucranianas e com todas as pessoas que depositam confiança” em seu trabalho.

A decisão ocorre após o amplo repúdio às falas do parlamentar, que partiram de aliados, opositores e representantes da comunidade ucraniana no Brasil. “Não tenho compromisso com o erro. Por isso entrei em contato com a presidente do Podemos, Renata Abreu, para retirar minha pré-candidatura ao governo de São Paulo”, escreveu o deputado. As mensagens de Do Val foram tornadas públicas no fim da tarde de sexta-feira, enquanto o parlamentar retornava de viagem à região do conflito, na qual, sustenta, arrecadou recursos para a ajuda aos refugiados. Poucas horas depois, o ex-ministro Sergio Moro, pré-candidato do Podemos à Presidência, rompeu com Do Val e disse que “jamais” dividirá palanque com quem tem “esse tipo de opinião e comportamento”. O Podemos informou ter aberto procedimento disciplinar para apurar os fatos.

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) também prometeu investigar a conduta do parlamentar. Ontem, o MBL, movimento do qual Do Val faz parte, condenou o teor dos áudios e pediu desculpas “às pessoas, especialmente às mulheres, que se indignaram sinceramente com os áudios”. Diz, porém, que o ocorrido “não invalida o objetivo da viagem, que se cumpriu ao arrecadarmos mais de R$ 250 mil para os refugiados ucranianos”. Arthur do Val também publicou um vídeo no YouTube com o título “Pedido de Desculpas”. Na gravação, ele admitiu que o áudio é real, mas negou que estivesse fazendo “turismo sexual” na Ucrânia.

—Quero que você separe as ações das palavras. Aceito ser julgado pelo que falei, mas não aceito ser julgado pelo que não fiz. Foi moleque, foi. Foi escroto, foi. Foi machista, foi. Mas separe as palavras da ação —afirmou no vídeo. Na série de áudios que enviou a amigos, o parlamentar afirma que havia acabado de cruzar a fronteira da Ucrânia com a Eslováquia. Com termos vulgares, diz que “a fila das refugiadas” só tinha “deusa” e que “a fila da melhor balada do Brasil (...) não chega aos pés da fila de refugiados aqui”. Entidade ligada à Embaixada da Ucrânia no Brasil e que representa a comunidade de brasileiros descendentes de ucranianos, a Representação Central Ucraniana-Brasileira (RCUB) apresentou ao presidente da Alesp, deputado Carlão Pignatari (PSDB), um requerimento pela cassação do mandato do parlamentar. A ex-embaixatriz da Ucrânia no Brasil Fabiana Tronenko também reagiu e pediu a cassação do parlamentar.

—Peço que você tenha mais respeito com as mulheres ucranianas, porque elas não são fáceis porque elas são pobres. São mulheres, são decentes, pessoas honradas, e você tenha respeito, seu vagabundo —afirmou Fabiana, em um vídeo publicado no Twitter. O encarregado de negócios na embaixada da Ucrânia no Brasil, Anatoliy Tkach, classificou de “inaceitáveis” as declarações do deputado. Questionado se os áudios prejudicam de algum modo a relação da Ucrânia com o Brasil, o encarregado de negócios negou, dizendo que isto “não é uma declaração oficial do Brasil”.

MORO SEM PALANQUE EM SP

O presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Humberto Costa (PT-PE), anunciou que vai apresentar um requerimento de convocação do deputado. O requerimento deve ser votado já na próxima segunda-feira. Em outra manifestação, a procuradora Especial da Mulher do Senado, Leila Barros (Cidadania-DF), e a líder da bancada feminina na Casa, Eliziane Gama (Cidadania-MA), defenderam que Arthur do Val deve “sofrer as sanções políticas cabíveis”. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que vai entrar com um pedido de cassação “imediata”.

— Vamos tomar todas as providências jurídicas em relação à fala —disse, em vídeo. Do Val se filiou ao Podemos em janeiro, com o objetivo de dar palanque para Moro em São Paulo. Os 18 prefeitos do estado filiados à legenda já disseram, porém, que pretendem apoiar a candidatura do vice Rodrigo Garcia (PSDB). Sem Do Val, o Podemos terá que procurar outro nome para dar palanque a Moro no estado, que concentra um quinto do eleitorado nacional, ou entrar oficialmente no arco de alianças de Garcia. (Cleide Carvalho, Eduardo Gonçalves, Eliane Neves, Lucas Altino e Julia Lindner)