Valor Econômico, v. 22. n. 5423, 22, 23, 24/01/2022, Brasil, A4
Economistas tentam avaliar peso da inércia da inflação

Por Anaïs Fernandes

 

Economistas têm disputado o entendimento a respeito do comportamento da inércia inflacionária no Brasil, isto é, a fração da inflação passada que é transferida para os preços correntes. Diante de inúmeros e persistentes choques que elevaram o IPCA a dois dígitos em 2021, um aumento da inércia criaria dificuldade adicional para a política monetária, exigindo aperto ainda maior do juro, com consequências negativas mais severas sobre atividade e emprego.

A MCM Consultores calcula, porém, que o coeficiente de inércia inflacionária do país registra queda nos últimos anos e mesmo nos meses mais recentes, com tendência de estabilidade. Pelas contas trimestrais da consultoria, o coeficiente foi de 0,1001 em setembro de 2021, ante 0,1007 em junho do mesmo ano e 0,1029 em setembro de 2020. O coeficiente diz respeito à inflação de preços livres do IPCA. Se ele tiver se mantido em 0,1 até o fim de 2021, considerando a inflação de preços livres de 7,7% do ano passado, a inércia, portanto, seria de 0,77 ponto percentual em 2022, explica Vitor Kayo, autor do estudo, coordenado pelo economista Alexandre Teixeira.

Pela série da MCM, o ápice do coeficiente foi em março de 2015 (0,139), e o vale, em março de 2004 (0,0992). “Na ponta da série, o coeficiente da inércia tem recuado”, diz o estudo. “Ela oscila um pouco mais negativamente com a pandemia, e agora parece estável, em patamar próximo ao do início da série em 2003.” A MCM observa ainda que o movimento da inércia ao longo do tempo descreve uma “curva suave, sem sobressaltos”.

A leitura da MCM corrobora a visão do Banco Central. Em falas de porta-vozes e relatórios, a autoridade monetária tem afirmado não enxergar, por ora, mudanças relevantes na quantidade de inércia na economia brasileira.

No modelo da MCM, o coeficiente de inércia é calculado, entre outras coisas, em função da atividade, através do hiato do produto (medida para a ociosidade da economia). A consultoria diz que o coeficiente é influenciado pelo ciclo econômico: períodos de atividade aquecida coincidem com aumento da inércia e vice-versa (ver gráficos ao lado).

“Por exemplo, durante praticamente todo o período 2003-2014, o hiato positivo puxou lentamente para cima o coeficiente da inércia inflacionária, movimento interrompido apenas na crise financeira mundial de 2008-2009. Já a partir de 2015, o hiato negativo coincidiu com recuo também lento da inércia”, diz a MCM. “Essa relação está em linha com a intuição de que períodos de economia aquecida facilitam o repasse de fração maior dos choques de custos. Afinal, com desemprego baixo, as pessoas de modo geral tendem a aceitar mais facilmente esses aumentos”, aponta o relatório.

Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), diz ser preciso separar o entendimento do grau de indexação da economia do impacto que a indexação tem na inflação corrente esperada.

“O grau de indexação é quanto dos preços da economia hoje está atrelado de forma relativamente automática à inflação passada, por mecanismos formais ou mesmo informais. Nesse ponto, a avaliação do BC está correta: os modelos mostram que o grau de indexação da economia brasileira tem caído ao longo dos últimos anos e décadas”, diz Borges.

Mesmo assim, o impacto da inércia na inflação de 2022 vai ser muito alto, afirma o economista, devido ao IPCA fechado de 10,1% em 2021. “A inflação foi muito alta no ano passado. Isso, multiplicado por um coeficiente de inércia mesmo que menor, ainda gera um impacto muito grande”, diz.

Lucas Vilela, economista do Credit Suisse, observa que modelos para calcular coeficiente de inércia inflacionária são mais um reflexo do passado. “A nossa avaliação é diferente: olhamos para o futuro e para a correlação histórica de que, quanto maior o nível da inflação, maior a inércia. No fim de 2022, início de 2023, o coeficiente inercial vai ser mais alto”, diz. É com essa visão que o banco projeta IPCA de 6% para 2022, ante uma meta de 3,5% e um teto de 5%.

O Credit Suisse comparou a persistência inflacionária brasileira com a de uma seleção de países emergentes por diversas métricas e conclui que, em quase todos os casos, o Brasil lidera. Por exemplo: em uma amostra que vai de 2002 a 2021, a inflação mensal não passou pelo ponto da sua média com uma frequência de 71% no Brasil, ante 63% no Chile, o segundo colocado. A ideia por trás dessa análise é que, após um choque temporário, a inflação deveria voltar para seu patamar de “equilíbrio”. Quanto mais vezes a inflação cruzar sua média, menos persistente ela é; se a inflação passa muito tempo distante da média, por outro lado, é porque a persistência é elevada.

Em outro exercício, o banco calculou o efeito de um choque cumulativo sobre a inflação, medida por um índice com preservação máxima de memória. Nesse caso, o índice brasileiro foi de 8,5, seguido por 8,2 da África do Sul. Entre os países emergentes com menor persistência de inflação, destacam-se a China e o México. “O Brasil é fora da curva”, afirma Vilela.

Isso torna a redução da inflação mais demorada no país do que pode ser em outros pares. Quanto maior a inércia, diz Vilela, mais difícil é para a autoridade monetária controlar o nível de preços. “Você precisa de uma política monetária mais restritiva para contrabalançar o efeito negativo da inércia. O trabalho do BC é muito importante agora. Se ele não faz nada ou tenta acomodar a inércia mais elevada, prejudica a política monetária no longo prazo.” O Credit Suisse vê a Selic em 12,25% neste ano.

Borges tem opinião diferente. Ele concorda que, em uma economia altamente indexada, a dissipação de choques inflacionários é lenta. Nesse contexto, porém, ele diz que o ideal é a política monetária alongar seu horizonte de convergência da inflação para a meta - dado que parte da inflação (a inercial) já “está contratada” -, sob o risco de penalizar excessivamente a atividade. “Até o fim do ano passado, a postura do BC era de que, independentemente da inflação de 2021, iria calibrar sua política para a meta de 2022. Foi só na virada do ano que ele começou a suavizar essa comunicação dizendo que 2023 está ganhando peso”, afirma.