O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Mundo, p. 21
ATAQUE ÀS SANÇÕES
PARA PUTIN, EQUIVALEM A AÇÃO BÉLICA
Em um forte pronunciamento após reunião com empresários, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que as sanções ocidentais adotadas até agora contra seu país equivalem “a uma declaração de guerra”, alertando que qualquer tentativa de criar uma zona de exclusão aérea na Ucrânia, como pedido pelo presidente ucraniano, seria considerada uma “implicação direta em atividades militares”. Ele advertiu que tal medida teria consequências catastróficas para a Europa e o mundo.
— As sanções impostas se assemelham a uma declaração de guerra, mas graças a Deus não chegamos a isso — disse Putin, referindo-se à adoção de sanções por EUA, União Europeia (UE), Reino Unido, Canadá e outros, que vem sendo uma das principais ferramentas de pressão sobre o governo russo para interromper a invasão russa no país vizinho.
Putin também afirmou que a Ucrânia corre o risco de perder sua condição de Estado independente.
—A atual liderança tem que entender que se continuarem fazendo o que fazem, arriscam o futuro do Estado ucraniano — disse, acrescentando: — Se isso acontecer, eles que serão os culpados.
Mais cedo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, acusou o Ocidente de “banditismo econômico”, ameaçando retaliações, mas sem dar detalhes. Já a Chancelaria russa acusou o Reino Unido de agir de forma “histérica” com as sanções, prometendo medidas duras, mas proporcionais, contra interesses britânicos na Rússia.
UCRÂNIA CRITICA OTAN
Por sua vez, o chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou que a tentativa do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de assegurar ajuda direta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — a aliança militar ocidental liderada pelos EUA — no conflito não ajuda nas negociações pela paz.
— As declarações constantemente iradas de Zelensky não aumentam o otimismo —disse ele a repórteres.
Ele mencionou a forte crítica de Zelensky à recusa da Otan de intervir no conflito para proibir mísseis e aviões russos no espaço aéreo ucraniano. Para Zelensky, a posição da Otan era um sinal verde para os bombardeios continuarem. A aliança ocidental rejeitou implementar a zona de exclusão aérea, advertindo que tal decisão poderia levar a um conflito maior e mais brutal.
— Minha questão é: se ele [Zelensky] está tão irritado que a Otan não interveio em seu auxílio, como esperava, então ele tem a expectativa de resolver o conflito pelo envolvimento da Otan em tudo isso, e não através de negociações? —indagou. Mais cedo, o chanceler ucraniano, Dmytro Kuleba, disse estar aberto a negociar com Lavrov, mas apenas se o diálogo fosse “significativo”. Kuleba acusou a Otan de ceder à pressão russa:
— A Otan não era a força que os ucranianos haviam imaginado anteriormente — disse o chanceler, que se reuniu ontem na fronteira entre a Ucrânia e a Polônia com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. Segundo Kuleba, ele e Blinken discutiram a provisão de armas para a Ucrânia e a campanha para danificar a economia russa com sanções, isolando Moscou. Kuleba disse que a Ucrânia precisa de caças e de sistemas de defesa aérea, afirmando que as armas antiaéreas Stinger fornecidas pelas nações ocidentais estavam sendo úteis.
— Se continuarem nos dando as armas necessárias, o preço será menor, salvaremos muitas vidas —disse.
Em meio à reunião de Blinken com Kuleba, e ao pedido de envio de aviões feito pelo presidente ucraniano, também ontem, a senadores dos EUA, a Chancelaria da Rússia pediu que a UE e os países da Otan parassem de “enviar armas” à Ucrânia, informou a agência russa RIA. O ministério afirmou estar preocupado que o sistema portátil Stinger pudesse acabar nas mãos de terroristas, representando ameaça à aviação civil.
DIPLOMACIA: CHINA E ISRAEL
Putin se encontrou ontem com funcionários da companhia aérea russa Aeroflot e, na reunião, justificou a guerra — que o Kremlin chama de “operação militar especial” — afirmando que “não podia ignorar as declarações sobre a Ucrânia se tornar potência nuclear”.
O líder russo voltou a exigir que suas demandas sejam atendidas para negociar, incluindo o status neutro e não nuclear da Ucrânia, sua “desnazificação”, o reconhecimento da Crimeia — anexada por Moscou em 2014 — como parte da Rússia, e a “soberania” dos separatistas no Leste do país. A terceira rodada de conversas está prevista para amanhã.
— Pusemos nossas propostas sobre a mesa nas conversações com a Ucrânia. Depende de eles responderem —disse Putin.
Por sua vez, a China, uma das principais parceiras da Rússia, pediu que Moscou e Kiev realizem negociações diretas para pôr fim ao conflito. Segundo a Chancelaria da China, o chanceler Wang Yi afirmou, em conversa com Blinken, ser necessário o estabelecimento do diálogo direto entre a Rússia e a Ucrânia. Wang apontou que a resolução precisa estar “relacionada aos interesses de segurança das duas partes”, e apontou para o “impacto negativo da expansão da Otan em direção ao espaço de segurança da Rússia”.
Em outra frente diplomática, o premier israelense, Naftali Bennett, encontrou-se com Putin em Moscou, conversou por telefone com Zelensky e seguiu para a Alemanha. Bennett aposta nas boas relações de seu governo com Moscou e Kiev, mas poucos acreditam que terá sucesso na tentativa de mediação.