O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Brasil, p. 26
VIDAS ERRANTES EM DESAMPARO
Rafael Galdo e Selma Schmidt
DESEMPREGO E PANDEMIA EMPURRARAM FAMÍLIAS PARA A VULNERABILIDADE DAS RUAS
É na calada da noite, quando a Praia de Copacabana não tem quase ninguém, que o acampamento é erguido. Numa mesma maloca, três famílias, com seis crianças, de 5 meses a 9 anos de idade, amontoam-se com o que restou dos tempos em que tinham um teto: mochilas com roupa, meia dúzia de brinquedos e um carrinho de bebê. As estacas de madeira que, de dia, são usadas pelos barraqueiros da orla, servem de suporte para o abrigo com “paredes” de plástico. Na areia, papelão vira piso. Mas o casebre improvisado tem validade. Precisa ser desmontado ao amanhecer, para dar lugar à rotina de um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil. Sem muita chance de sonhar, o grupo se levanta para pedir doações ou fazer bicos que rendam algum trocado. É uma tentativa de romper a invisibilidade com um único objetivo — garantir o que comer.
Como mostra a partir de hoje uma série de reportagens do GLOBO, eles integram uma multidão empurrada à vida nas ruas do Rio devido à crise econômica, agravada pela pandemia, que aniquilou postos de trabalho nos últimos anos. E revelam perfis que, assim como levantamentos recentes corroboram, profissionais que lidam diretamente com essa população afirmam ser preponderantes no novo fluxo de gente lançada à vulnerabilidade extrema da sarjeta. São, muitas vezes, famílias inteiras, sobretudo, mulheres, parte delas com seus filhos pequenos. E também desempregados ou quem mantém uma ocupação informal ou precária, sem renda suficiente para arcar com a moradia. São características que têm tornado ainda mais heterogêneos os rostos e históricos pessoais de quem para nas ruas, drama antes muito atrelado a fatores como conflitos familiares e uso excessivo de álcool e drogas.
Na barraca coletiva de Copacabana, vários desses contornos se encontravam. No começo da manhã do último dia 17 de fevereiro, três das crianças estavam coladas ao pai, Flávio dos Santos, de 28 anos, que usava uma tornozeleira eletrônica. A mãe dos pequenos, segundo ele, já estava de pé, vendendo doces. Sem trabalho fixo, contou Flávio, a família completou um ano e quatro meses sem teto. Deitados perto dos filhos de Flávio, estavam Juliana da Silva, de 24, seu companheiro e a filha, de apenas 5 meses. Num outro canto, despertavam Verônica da Costa, de 32, e suas duas meninas, de 5 e 2 anos, que vivem outra faceta das ruas.
— Tenho casa em Nova Iguaçu, na Baixada, mas sou sozinha e não tenho de onde tirar dinheiro. Aqui, vendo doce, e encontro quem dê café e almoço —contou Verônica.
Mensurar esse desafio social, porém, é pouco frequente. Na capital fluminense, o último censo da prefeitura se tornou antigo frente à velocidade com que o problema se aprofundou: é de outubro de 2020, quando foram identificadas 7.272 pessoas em situação de rua, das quais 1.803 sob acolhimento institucional, como nos abrigos, e 1.360 (18,7%) do sexo feminino. Um indicativo de como a questão tem evoluído vem das famílias em situação de rua do Cadastro Único, do Ministério da Cidadania (embora não represente o todo, pois muitas sequer conseguem acesso ao direito). No município do Rio, em outubro de 2019, havia 6.771 delas inscritas, quantidade que foi a 7.663 um ano depois, alcançando, em outubro de 2021, um total de 8.009 — aumento de 18,3% no período. Nos dados mais recentes, de janeiro de 2022, eram 8.877 famílias cadastrados, entre elas 1.110 (12,5%) representadas por pessoas do sexo feminino, quase a totalidade recebendo ajuda do governo.
MEDO COMUM
Para Juliana Barreto, de 22 anos, o Auxílio Brasil é a única renda fixa. Ela e o marido tinham um triciclo no Centro do Rio, onde vendiam lanches e bebidas. Como camelô, o casal ganhava pouco, mas dava para pagar o aluguel de R$ 400 no Morro da Providência. Com as ruas esvaziadas no início da pandemia, a clientela desapareceu. E a corda bamba em que viviam logo arrebentou. Não havia mais dinheiro para comprar mercadoria, que dirá pagar o aluguel.
À beira do precipício, o maior medo de Juliana era ir ao relento com as duas filhas pequenas. Temor que se intensificou ao imaginar que poderia perder a guarda delas — uma aflição que se revela comum a muitas das famílias com crianças sem lar. Para não ficar totalmente ao léu, Juliana conseguiu um espaço para dormir numa ocupação de sem-teto (extremamente carente, diz ela) na Zona Portuária. E com intenção de não depender só do governo, ela passou a vender bala no Catete, na Zona Sul. A filha mais velha, de 3 anos, fica na creche. A mais nova, de 1 ano e 3 meses, ela leva para o “corre”.
—O dinheiro do auxílio acaba em 15 dias. Preciso trabalhar, mas não tenho com quem deixar a menina. Volta e meia o Conselho Tutelar (órgão que garante a proteção de crianças e adolescentes) me aborda. Esse é meu desespero: depois de ter perdido quase tudo de material, tirarem dos meus braços o que tenho de mais precioso —diz Juliana.
Enquanto amamenta a criança na porta de um banco, ela diz que também a dilacera o sentimento de humilhação ao ser julgada por estar nessas condições:
— Quantas vezes não enchi a barriga de água e dormi para não lembrar da fome? A hora que mais penso nessa situação é quando estou vendendo bala. Tem gente que passa e me xinga, me diz “vai trabalhar”. Uma mesma mulher que sempre insinua que exploro minha filha. Não sou um bicho para me tratarem assim.
PECULIARIDADES REGIONAIS
Assistentes sociais e equipes de Saúde da prefeitura que atendem à população de rua chegam a dizer que o medo de serem separadas dos filhos é tamanho que, não raramente, as famílias driblam as abordagens do município. A realidade de Juliana ainda revela outro aspecto que os profissionais têm observado. Na região central do Rio, o expressivo aumento dos sem-teto tem se manifestado no crescimento das invasões de imóveis vazios. Enquanto que, na Zona Sul, quem antes passava dias na rua para economizar dinheiro de transporte, mas eventualmente voltava para casa, agora tem permanecido em definitivo nas calçadas. Na Zona Norte, o que os preocupa é o superpovoamento das cenas de uso de droga, como o crack.
Diante do desalento, em novembro passado o prefeito Eduardo Paes chegou a se dizer envergonhado por constatar no Centro barracas de pessoas na rua. No mês seguinte, informou que estudava a criação de uma secretaria voltada exclusivamente para o tema, mas nenhuma decisão foi tomada até agora.
—O que se precisa pensar é em profissionalizar essas pessoas, oferecer cursos, e abrir vagas de emprego — afirma o sociólogo João Clemente de Souza Neto, professor da Mackenzie de São Paulo, frisando que o aumento da população de rua no Rio e em outras metrópoles é resultado de múltiplos fatores, entre eles a pandemia, mas principalmente as crises econômica e política do país. —Numa crise dessa dimensão, cresce a desigualdade social. Depois, há os desdobramentos do desemprego (atualmente numa taxa de 14,2% no Rio, acima da média nacional) e da falta de moradia. Quem não tem casa própria, não tendo salário, não tem como pagar aluguel.
Pela cidade, das praças de Ipanema às da Pavuna, o sofrimento se repete. Mas, em cada região, o povo de rua também tem particularidades. Nas vizinhanças de Irajá, muitos se alimentam ou vão atrás do trabalho na órbita da Ceasa. Já bairros como Glória e Copacabana concentram pessoas LGBTQIAP+, muitas transexuais e travestis. No Centro, cabem vários perfis, como os que buscam mais segurança para dormir na Avenida Marechal Câmara, próximo a órgãos como o Ministério Público, ou os que confessadamente realizam furtos no coração financeiro da cidade. Situação impensável para os moradores de rua do centro comercial de Campo Grande, na Zona Oeste, onde a milícia proíbe esses crimes, sob a ameaça das penas dos grupos paramilitares.
No bairro, outra singularidade é a relação da população de rua com o Centro de Referência da Assistência Social (Cras) local, ao qual recorrem diariamente, por exemplo, para tomar banho. É o ponto de apoio de moradores como Lucas Henrique da Silva, de 25 anos, conhecido como Du’Coco devido aos malabarismos com cocos que faz nos sinais de trânsito. Tem quatro meses que ele chegou com a família de Palmas, no Tocantins. Na internet, sua mulher fez uma busca por “lugar barato para morar no Rio ”. Encontrou aluguel a R$ 250 numa comunidade de Campo Grande. Ao se mudarem, perceberam que não era bem assim, e não conseguiram assumir as despesas que surgiram:
— Achamos um canto cedido para meu filho e minha mulher, e eu segui na rua, onde encaro preconceito e pressão psicológica para sustentá-los.
AMANHÃ: Os problemas de saúde e a falta de abrigos que afligem a população de rua