O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Economia, p. 14

''É obrigação da classe empresarial cobrar”

Luciana Rodrigues e Janaina Lage


Repúdio inédito de diferentes empresas a Rússia mostra que exigências de responsabilidade social vieram para ficar, diz Pedro Parente. No Brasil, carências sociais e de infraestrutura são oportunidades para investimento de propósito

Em poucos dias após a invasão da Ucrânia, empresas internacionais de diferentes setores e estaturas — de gigantes petrolíferas a varejistas populares — interromperam seus negócios com a Rússia. Além da dificuldade de operar com uma economia bloqueada pelas sanções financeiras do Ocidente, pesou na decisão a cobrança cada vez maior no mundo corporativo de compromisso com as instituições, a democracia e a responsabilidade social, avalia Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras e sócio da eB Capital.

— Isso está acontecendo, veio para ficar. Não tenho a menor condição de dizer quanto disso (a decisão de várias empresas de deixarem de fazer negócios com a Rússia) é resultado das restrições feitas pelos Estados Unidos e pelo governo britânico, e quanto é vontade de verdade. Mas acredito que grande parte disso é uma atuação efetiva, protagonista das classes empresariais.

INTERNET EM ÁREAS REMOTAS

Sem querer fazer comparações entre a situação do Brasil e o sofrimento das populações civis na guerra provocada pela invasão russa à Ucrânia, Parente lembra que também na classe empresarial brasileira cresce a pressão por responsabilidade das empresas com a comunidade em que estão inseridas.

— A gente já assiste no Brasil a lideranças empresariais fazendo cobranças em relação a uma necessidade de gestão com responsabilidade política, econômica, de compromisso com as instituições, com a democracia, com a pluralidade de opinião, essas coisas são fundamentais. Essa indignação na área empresarial já acontece e, diga-se de passagem, não é favor nenhum da classe empresarial, é obrigação —diz Parente. 

Os investimentos com propósito são o foco de atuação da eB Capital, mas sem abrir mão do lucro, destaca Parente. A empresa é uma gestora de equity, ou com participação relevante em empresas com alto potencial de crescimento. O objetivo é garantir retorno de longo prazo aos clientes. Seu projeto mais ambicioso até agora é a Alloha Fibra. Braço de telecomunicações da gestora, a empresa construiu uma rede de fibra óptica com mais de 1 milhão de assinantes, que levou internet a áreas remotas do país.

— A gente começou esse projeto em 2015, em 2018 adquirimos uma empresa que tinha 92 mil assinantes, e hoje tem mais de 1,1 milhão de assinantes e com uma perspectiva de crescimento de 30%, 40% ao ano. As oportunidades existem, elas decorrem das necessidades, dos gargalos estruturais, como esse da inexistência de um acesso de internet de alta velocidade para famílias e empresas, num momento na pandemia em que até a educação era feita pela telinha.

EDUCAÇÃO E SAÚDE

A gestora tem um fundo chamado Preferred Futures, o futuro que queremos escolher, como resume Parente, que está atento a investimentos em economia circular, saúde e educação, como o ensino técnico.

— Nós olhamos esse tema de educação técnica de qualidade como uma lacuna no nosso país. Atraiu-nos muito o tema de educação técnica de saúde, que significa três áreas de atuação e impacto social: educação, saúde e emprego, porque você só pode fazer educação técnica assegurando um estágio para os alunos. Segundo Parente, os problemas do Brasil são oportunidades para fazer investimentos com impacto social e retorno típico de private equity ,que é elevado, porque o recurso fica bloqueado por um período muito maior do que o de uma aplicação em ações, por exemplo, da qual é possível se desfazer a qualquer momento:

— Private equity e venture capital (capital inicial para empresas), eu vejo com potencial relevante sobretudo no Brasil, onde a capacidade de investimento e de poupança do setor público está praticamente igual a zero. Essa possibilidade de usar recursos privados para auxiliar o crescimento do país, na solução de gargalos estruturais, sociais, ambientais, é muito relevante. A gente só precisa de um ambiente mais propício aos negócios para ver isso aumentar muito de proporção.