Valor Econômico, v. 22. n. 5423, 22, 23, 24/01/2022, Empresas, B1

Após aquisições, TotalEnergies terá no Brasil 10% da produção mundial
André Ramalho e Gabriela Ruddy

 

A TotalEnergies deu um passo importante para fortalecer a presença no país, em dezembro, ao comprar parte dos volumes excedentes da cessão onerosa de Sépia e Atapu, no pré-sal, por R$ 2,9 bilhões em bônus de assinatura. O presidente global da companhia, Patrick Pouyanné, conta que os novos ativos, por estarem em operação, renderão frutos já neste ano e que, com as aquisições, o Brasil atingirá uma participação de 10% dentro de toda a produção global de petróleo da empresa em 2023.

A TotalEnergies deu um passo importante para fortalecer a presença no país, em dezembro, ao comprar parte dos volumes excedentes da cessão onerosa de Sépia e Atapu, no pré-sal, por R$ 2,9 bilhões em bônus de assinatura. O presidente global da companhia, Patrick Pouyanné, conta que os novos ativos, por estarem em operação, renderão frutos já neste ano e que, com as aquisições, o Brasil atingirá uma participação de 10% dentro de toda a produção global de petróleo da empresa em 2023. 

Com ambições de crescimento tanto no setor de óleo e gás quanto em energias renováveis, a multinacional prevê investir, por ano, cerca de US$ 1 bilhão no mercado brasileiro em cinco anos.

A TotalEnergies (ex- Total) mudou de nome, em 2021, para simbolizar o plano de transição energética. A companhia estima que a demanda por petróleo atingirá o pico até o fim da década e quer se posicionar como uma empresa de energia, menos dependente da commodity.

Em visita ao Brasil, onde se reuniu na semana passada com a Petrobras, para tratar dos planos para Sépia e Atapu, Pouyanné disse ao Valor que a empresa dobrou a aposta no pré-sal porque os ativos adquiridos “se encaixam bem” com a estratégia da companhia de buscar projetos com custos e emissões por barril menores. “E não há milagre: baixo custo significa campos gigantes e podemos encontrar isso aqui no Brasil”, afirmou.

Ele conta que a multinacional chegou a se interessar pelos ativos em 2019, na primeira tentativa do governo de leiloar as áreas, mas que os bônus na ocasião estavam muito caros. “Dois anos depois voltamos, as condições foram mais aceitáveis, então dissemos ‘ok, é uma oportunidade única’”, disse, em referência ao corte de 70% no valor dos bônus.

Pouyanné defende que as petroleiras precisam ser cuidadosas na transição energética e continuar a investir em óleo e gás. O plano de investimentos da TotalEnergies prevê US$ 13 bilhões a US$ 15 bilhões por ano até 2025, sendo metade desse valor destinado ao crescimento, com foco em gás e renováveis; e a outra metade na manutenção da base de atividades, sobretudo da produção de óleo.

O executivo alega que, se a indústria petrolífera não investir, a produção global começará a cair e a pressionar os preços para o consumidor, numa economia ainda dependente dos fósseis. “Este não seria um bom sinal”, disse Pouyanné. Segundo ele, preços mais caros para a energia podem levantar questionamentos à transição energética, por parte da sociedade, e trazer riscos à descarbonização.

“As pessoas vão discordar [da transição energética] e se perguntar ‘por que eu deveria pagar a mais?’. A energia é uma necessidade fundamental, as pessoas precisam de energia para se locomover, para comer, para viver”, comenta.

Vale lembrar que, na França, o aumento dos impostos sobre combustíveis fósseis foi o estopim para os protestos que ficaram conhecidos, em 2018, como o movimento dos coletes-amarelos.

A TotalEnergies fechou 2021 com uma produção de petróleo e gás de 60 mil barris diários de óleo equivalente (BOE/dia), na média, segundo dados da ANP. A multinacional não divulga a projeção para os próximos anos, mas a expectativa da empresa é que Sépia e Atapu contribuam com 30 mil BOE/dia na produção da companhia neste ano e com 50 mil em 2023. A companhia terá uma participação de 15% na jazida compartilhada de Atapu (que unifica os volumes excedentes da cessão onerosa e a concessão Oeste de Atapu, onde a empresa já possuía participação). No caso de Sépia, a fatia da petroleira será de 16,91%.

A produção da empresa no Brasil deve ser fortalecida ainda pelas quatro plataformas previstas para entrar em operação até 2025 no campo de Mero, na Bacia de Santos, onde a multinacional é sócia da Petrobras com 20%. A carteira de ativos da TotalEnergies é composta ainda por Lapa - único campo do pré-sal, em produção, operado por uma empresa fora a Petrobras - e por uma fatia minoritária de 22,5% nas áreas de Sururu e Berbigão, todas na Bacia de Santos.

A multinacional também aposta no potencial de descobertas no bloco C-M-541, na Bacia de Campos, adquirido na 16ª Rodada, em 2019. Este foi o ativo mais caro da história, nas rodadas de concessão da ANP. A área custou R$ 4,03 bilhões, em bônus de assinatura, ao consórcio liderado pela TotalEnergies - que, desse total, pagou R$ 1,6 bilhão. Pouyanné disse que este foi, provavelmente, o “último bônus bilionário” que a companhia colocou num ativo de exploração. “Então espero que a gente encontre petróleo. Se for um sucesso pode ser muito grande.”

O executivo afirma que se reuniu com a Petrobras para debater o novo plano de desenvolvimento de Sépia e Atapu. Os dois campos já produzem hoje por meio de uma plataforma cada, mas ambos ganharão mais uma unidade de produção. A conversa com a brasileira, segundo ele, passou também por temas como oportunidades conjuntas em biocombustíveis. A estatal saiu do negócio de etanol e biodiesel, mas aposta na produção de diesel verde - fruto do coprocessamento de óleo vegetal com diesel nas refinarias.

“Estamos dispostos a investir em biocombustíveis, discutimos isso com a Petrobras também... Nós temos algumas biorrefinarias na Europa, as pessoas estão falando cada vez mais sobre combustíveis de aviação sustentáveis”, disse.

A previsão da TotalEnergies é que, em 2030, o petróleo represente 30% do mix de vendas da empresa. O gás será o grande negócio da companhia, responsável por 50% das vendas, enquanto a geração renovável representará 15% e a biomassa e hidrogênio outros 5%.

A francesa bateu recorde de cargas de gás natural liquefeito (GNL) vendidas para o Brasil em 2021, diante do maior despacho das termelétricas no país. A companhia tem perspectivas de novos negócios. No ano passado, a companhia fechou um acordo com a Compass, para fornecer GNL para o terminal que a empresa do grupo Cosan pretende construir em São Paulo.

A ideia é construir um portfólio com um mix de GNL e gás produzido localmente. A empresa quer ser um agente no processo de abertura do mercado no Brasil. Com a construção do Rota 3, gasoduto de escoamento em construção pela Petrobras e previsto para 2022, a TotalEnergies pretende começar a comercializar o seu gás do pré-sal.

No negócio de renováveis, a multinacional atua no Brasil por meio da Total Eren - que opera 300 megawatts (MW), incluindo solar e eólica, e tem mais 700 MW de projetos em desenvolvimento.

Pouyanné conta que o plano é acelerar os investimentos em renováveis no país e que a companhia também vê oportunidades de entrar no segmento de geração a gás. “Vamos passo a passo”, disse.