O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Mundo, p. 21

Corredor humanitário fracassa e civis ficam bloqueados



Russos e ucranianos trocam acusações de desrespeito a acordo na primeira tentativa de retirar população de Maríupol e Volnovakha

A Rússia anunciou a retomada da ofensiva contra a cidade portuária de Mariupol, na costa do Mar de Azov, horas depois de fracassar a tentativa de abrir, sob um cessar-fogo temporário e parcial, corredores humanitários para a passagem de civis e o envio de alimentos e medicamentos à região durante um período de cinco horas.

Antes mesmo da confirmação dos novos ataques, russo se ucranianos trocaram acusações sobre o fracasso em oferecer essas linhas seguras de passagem, no momento em que a ONU prevê que o número de refugiados pelo conflito suba a 1,5 milhão até hoje. A ONU confirmou até agora que a guerra deixou ao menos 351 civis mortos e 707 feridos, fazendo a ressalva de que os números devem ser “consideravelmente mais altos”.

— Devido à reticência da parte ucraniana em influenciar os nacionalistas a prolongar o cessar-fogo, as operações ofensivas foram reiniciadas às 18h de Moscou (12h em Brasília) —afirmou o porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov.

O cessar fogo era válido para os corredores de acesso às cidades de Mariupol e Volnovakha. Mas, segundo o porta-voz, “batalhões nacionalistas” usaram a pausa nos combates para “se reagrupar e reforçar posições”. Mais tarde, o Ministério de Defesa da Rússia disse que as forças russas ficaram sob fogo depois de estabelecerem os corredores humanitários durante o cessar-fogo parcial.

— Nenhum civil conseguiu sair de Mariupol e Volnovakha pelos corredores de segurança anunciados. A população civil dessas cidades está sendo usada como escudos humanos pelos nacionalistas — disse Konashenkov, referindo-se às forças que lutam contra os militares russos.

Na segunda rodada de negociações entre Rússia e Ucrânia na Bielorrússia, na quinta-feira, foi acertado que seriam abertos corredores humanitários, sendo que a primeira tentativa foi adotada ontem em Mariupol e Volnovakha, hoje cercadas por tropas russas. Segundo a agência de notícias russa RIA, os civis poderiam partir entre meio-dia e 17h (das 9h às 14h no horário de Brasília). Segundo o governo ucraniano, o plano era retirar cerca de 200 mil pessoas de Mariupol e 15 mil de Volnovakha.

Mas o prefeito de Mariupol, Vadim Boichenko, acusou a Rússia de não respeitar o cessar-fogo, pedindo então aos civis que estavam reunidos nos pontos de saída para retornarem aos abrigos e esperar por informações adicionais de retirada. Ontem, só 17 pessoas conseguiram deixar Mariupol e ninguém deixou Volnovakha, segundo separatistas pró-Rússia citados pela agência Tass.

“A retirada de civis foi adiada por razões de segurança, já que as forças russas continuam bombardeando Mariupol e seus arredores”, afirmou a prefeitura no Telegram, pedindo que “retornem para os refúgios”.

Durante a tarde, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) confirmou que as evacuações não começariam ontem.

“Continuamos em diálogo com as partes sobre a passagem segura de civis de diferentes cidades afetadas pelo conflito”, afirmou o CICV em comunicado.

— Estou agora em Mariupol, estou na rua. Ouço bombardeios a cada três ou cinco minutos — disse à rede BBC Alexander, um engenheiro de 44 anos e morador da cidade. —Posso ver carros de pessoas que tentaram fugir e estão voltando. Está um caos.

Localizada a cerca de 55 km da fronteira russa, a cidade portuária no Mar de Azov, no Sudeste da Ucrânia, tem sido alvo de bombardeios pesados e já está sem água, comida e energia elétrica.

RETORNANDO PARA LUTAR

A cerca de 85 km do reduto separatista pró-Moscou de Donetsk, Mariupol é a maior cidade nas mãos de Kiev na área de Donbass, região das autoproclamadas repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk. Por isso, o controle da cidade é estratégico para Moscou, já que permitiria garantir uma continuidade territorial entre suas forças procedentes da Península Crimeia, anexada por Moscou em 2014, e as unidades dos territórios separatistas pró-Moscou.

Em dez dias de guerra, Moscou já conquistou o controle de duas cidades importantes: Berdiansk e Kherson, na costa do Mar Negro, Sul da Ucrânia. O ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov, disse que 66.224 homens ucranianos voltaram do exterior para se juntar à luta contra a invasão russa.