O GLOBO, n 32.353, 06/03/2022. Economia, p. 17
Orgânicos conquistam mais consumidores e dinamizam negócios
Vitor da Costa
Empresas investem em tecnologia para otimizar relações entre clientes, varejistas e produtores. E ainda atraem recursos
Entre os mercados que se destacaram após o início da pandemia está o de alimentos orgânicos. Mesmo com os impactos negativos na cadeia logística e na renda das famílias, mais pessoas passaram a consumir os produtos livres de agrotóxicos, pensando nos benefícios pessoais e coletivos da prática.
A maior procura também dinamizou o ambiente de negócios no segmento, como surgimento de novas empresas e o crescimento das já existentes.
Segundo dados preliminares da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), esse mercado movimentou R$ 6,3 bilhões no ano passado, contra R$ 5,8 bilhões em 2020, ano que já havia registrado crescimento.
Pesquisa da entidade com a consultoria Brain e com a iniciativa UnirOrgânicos mostrou que, em 2021, o número de consumidores orgânicos no país cresceu 63%.
O diretor executivo da Organis, Cobi Cruz, associa o aumento da procura por esses produtos à preocupação dos consumidores com questões relacionadas à saúde individual e ao meio ambiente, que cresceu durante a pandemia.
Ele também destaca que o segmento sentiu menos o peso da inflação em 2021, que castigou os alimentos convencionais, por não usar insumos à base de petróleo. Para 2022, a estimativa é de um crescimento entre 10% e 15%.
— Vai ser um ano difícil, com desafios. Por outro lado, a perspectiva ainda é de crescimento, porque esse pico de procura por alimentos saudáveis, e consequentemente por orgânicos, vem acompanhado de uma mudança de mentalidade.
Esse foi o caso da assistente social Fernanda Zeni. Disposta a adotar uma nutrição mais saudável, aumentou o consumo de orgânicos após o início da pandemia. O fato de morar próximo a uma feira de produtos do gênero ajudou.
—Sabe-se que alimentos com menos agrotóxicos são melhores, com mais qualidade e sabor. Eles já se tornaram um hábito na minha vida —conta.
O gasto da assistente social com os orgânicos no ano passado girava em torno de R$ 300 por mês. O preço ainda é o maior obstáculo. Por isso, Fernanda se viu obrigada a reduzir os gastos com a cesta. Cresceram também as empresas que ligam os produtores a restaurantes, varejistas e consumidores, atraindo investidores. Em geral, as iniciativas buscam criar uma cadeia rastreável dos itens. Além de resolver o gargalo de preço, que impede o maior crescimento do segmento.
‘MATCH’ COM O COMÉRCIO
Pensando em como mudar a cadeia de alimentos com o uso de tecnologia, o engenheiro Tomás Abrahão criou a Raísz, que conecta cultivadores orgânicos ao consumidor final, eliminando a necessidade de atravessadores. Tem mais de 900 produtores parceiros, com as entregas concentradas no estado de São Paulo.
A Raísz monitora a demanda pelos produtos e viabiliza o planejamento da colheita em sinergia com os agricultores, evitando desperdício.
Segundo Abrahão, a empresa consegue entregar alimentos 20% mais baratos ao consumidor e pagar 20% mais aos produtores por dispensar intermediários. Em 2021, cresceu 170% em faturamento e recebeu o primeiro grande aporte, de R$ 10 milhões.
Quem também aproveitou a onda dos orgânicos foi a startup de alimentação saudável Liv Up. Conhecida por oferecer refeições congeladas individuais, diversificou seu portfólio nos últimos anos, com a oferta de alimentos in natura.
— Já tínhamos uma cadeia bem estruturada de produtores orgânicos para as nossas refeições. Fornecer o alimento in natura foi mais uma oportunidade de avançar nesse projeto — afirma o gerente sênior de Inovação e Sustentabilidade da Liv Up, Pedro Martins, ressaltando oferecer cem variedades em produtos.
Com 40 agricultores parceiros, gera receita média de R$ 15 mil para cada um deles. A Liv Up recebeu R$ 230 milhões em aportes em 2021. Os recursos possibilitaram a expansão do portfólio e o investimento na parte de tecnologia.
Criada em 2016, a start-up Muda Meu Mundo identificou demanda crescente de varejistas por se conectar a pequenos produtores e garantir a oferta de alimentos saudáveis em seus estabelecimentos. Ela mapeia e avalia os cultivadores para entender o mix de produtos, o volume e o preço que podem oferecer, enquanto conversa com os varejistas para mapear suas necessidades. Depois, é feito o match. Os produtores orgânicos correspondem a 80% dos parceiros.
Após um projeto piloto com um supermercado em Fortaleza em 2019, o modelo de negócios se expandiu para São Paulo. Hoje, tem 42 varejistas parceiros —Natural da Terra, Pão de Açúcar e Carrefour, entre eles — com a meta de chegar a cem até o fim do ano.
Segundo Priscilla Veras, fundadora e CEO da startup, a empresa consegue dar ao varejista 10% a mais de margem do que teriam comercializando esses itens de forma convencional:
— A gente ainda traz para o supermercado uma base de dados. E ele transforma isso em ESG. Consegue dizer ao cliente final dele, em marketing, nos relatórios de impacto para investidores.