Valor Econômico, v. 22. n. 5423, 22, 23, 24/01/2022, Agronegócios, B8

Manejo Florestal Sustentável move avanço do setor madeireiro em MT

Rafael Walendorff
 

Principal produtor de grãos e dono do maior rebanho bovino do país, Mato Grosso também lidera a produção brasileira de madeira nativa, legal e certificada em áreas privadas, com o Manejo Florestal Sustentável (MFS). A atividade busca aliar corte controlado de árvores, com práticas sustentáveis, e crescimento econômico na porção do bioma Amazônia localizado no Estado.

O segmento é o principal motor da economia de 44 municípios do norte mato-grossense. Ocupou 4,7 milhões de hectares em 2021 e emprega cerca de 90 mil pessoas. A meta é chegar a 6 milhões de hectares manejados até 2030, avanço que poderá ser acelerado com os retornos financeiros alcançados com o aumento da demanda e a valorização dos produtos após o início da pandemia. São explorados de 200 mil a 350 mil hectares por ano nas áreas de Reserva Legal das propriedades privadas de agropecuaristas - no bioma Amazônia, 80% das fazendas têm que ser preservadas e 20% podem ser usados comercialmente para plantio ou criação de animais. Com corte planejado, previamente aprovado e monitorado pelos órgãos ambientais por meio da chamada cadeia de custódia, a produção chegou a 4,1 milhões de metros cúbicos de madeira nativa no ano passado. Foram mais de 351 mil toras de mais de 30 espécies amazônicas, como angelim, cumaru, ipê, cambará, itaúba, cedro e garapeira. O valor da produção chegou a R$ 313,3 milhões, segundo dados do Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (Cipem-MT).

No MFS, o trabalho segue um detalhado plano de manejo, feito por engenheiros florestais e submetido à aprovação e o controle da Secretaria de Meio Ambiente do Estado. O processo, regulamentado desde 2006, é monitorado por satélites e atende às regras do Código Florestal. As Áreas de Preservação Permanentes (APPs) não são exploradas e o impacto ambiental é limitado.

A técnica consiste na retirada de árvores nativas maduras da mata. O volume máximo permitido de corte é de 30 metros cúbicos por hectare, o que equivale a oito árvores (com mais de 50 centímetros de diâmetro) em uma área equivalente a um campo de futebol.

No levantamento prévio, a área é mapeada e as plantas com potencial comercial são identificadas e marcadas com uma placa de metal - tanto as que serão manejadas como as que ficam para “porta sementes”, as remanescentes (que não atingiram ponto de extração) e as que não podem ser cortadas, como a castanheira. As toras extraídas e o toco das árvores cortadas também recebem placas de identificação, o que garante a rastreabilidade do produto.

Depois de manejada, a área é isolada e fica em “pousio” por 25 anos para regeneração e crescimento da vegetação nativa. A árvore madura, considerada um “estoque de carbono” em sua biomassa, abre espaço para o nascimento de, em média, três novas plantas, com entrada de luminosidade na mata. Elas vão reiniciar o processo de remoção de gases do ar e geração de oxigênio, colaborando para a renovação da floresta e a perpetuação de espécies.

“A melhor ferramenta e a mais eficaz que o país tem hoje de conservação de floresta em pé é o Manejo Florestal Sustentável. Ao mesmo tempo em que protege e conserva, gera e distribui renda e melhora a qualidade de vida das pessoas na floresta”, diz Frank Rogieri, presidente do Sindicato dos Madeireiros do Extremo Norte de Mato Grosso (Simenorte-MT), com sede em Alta Floresta.

Rogieri atua com manejo há 14 anos na região e retira madeira nativa de 2 mil hectares por ano, com rendimento próximo de 18 metros cúbicos por hectare. Sua produção e a dos demais madeireiros locais impulsiona os negócios de 2,6 mil empresas do segmento de base florestal em Mato Grosso, quarto setor mais importante da economia do Estado, com massa salarial superior a R$ 50 milhões e arrecadação de ICMS próxima de R$ 100 milhões por ano. São 560 indústrias.

Segundo a secretária de Meio Ambiente do Estado, Mauren Lazzaretti, a exploração sustentável da floresta é uma das estratégias mais consistentes atualmente para garantir a conservação das reservas legais. “O Estado tem investido em melhorias da rastreabilidade como estratégia para eliminar madeira ilegal, e vamos lançar em 2022 dois projetos importantes para fortalecer a cadeia produtiva sustentável e lícita”.

As iniciativas são o sistema Sisflora 2.0, criado para rastrear a madeira da origem até a indústria, e o módulo de sistema para inventário florestal do Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS), que vai aprimorar o levantamento de dados na floresta.

“O crescimento vai se dar em áreas de reserva de agricultores, que são os donos do mato. O desafio é mostrar ao produtor que essa é uma opção de renda segura, mas ainda existe receio de que mexer com madeira possa atrapalhar o negócio principal”, disse Rogieri, que também preside o Fórum Nacional das Atividades de Base Florestal (FNBF). Mato Grosso tem mais de 100 mil propriedades rurais inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), que somam aproximadamente 50 milhões de hectares.