O GLOBO, n 32.354, 07/03/2022. Mundo, p. 20

Putin diz que invasão só acaba com rendição da Ucrânia



Em conversa com Erdogan, líder russo volta a fazer exigências, e a Macron reafirma que conseguirá seus objetivos 'por diplomacia ou guerra'

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, alertou a Ucrânia ontem de que a ofensiva militar russa no país só será interrompida se Kiev se render e cumprir todas as exigências do Kremlin. A declaração foi dada ao líder turco, Recep Tayyip Erdogan, durante conversa por telefone.

“Foi sublinhado que a suspensão da operação especial só é possível se Kiev interromper as operações militares e cumprir as conhecidas exigências russas”, disse Putin, em nota do Kremlin. As autoridades russas só se referem à guerra como “operação especial”, e na sexta-feira entrou em vigor uma lei criminalizando críticas aos militares, incluindo chamar a invasão de “guerra”. 

MOSCOU ‘ABERTA AO DIÁLOGO’

Putin ainda teria dito a Erdogan que Moscou está aberta ao diálogo com as autoridades ucranianas, mas que espera que os negociadores de Kiev adotem uma abordagem mais “construtiva, levando plenamente em conta as realidades emergentes”, na próxima rodada de negociações, marcada para hoje. O Kremlin alertou para a “futilidade de qualquer tentativa de prolongar o processo de negociação, que está sendo usado pelas forças de segurança ucranianas para reagrupar suas forças e recursos.”

Durante a ligação, Putin também afirmou que a “operação especial” no país vizinho estava indo de acordo com o plano e o cronograma estabelecidos por Moscou.

O presidente turco, por sua vez, pediu um cessar-fogo geral e a “abertura urgente” de corredores humanitários na Ucrânia, segundo comunicado de Ancara.

—Um cessar-fogo urgente e geral permitirá encontrar uma solução política e responder às inquietações humanitárias — afirmou Erdogan. — Vamos abrir juntos o caminho para a paz. A Turquia está disposta a dar sua contribuição sob todas as formas para a resolução pacífica da crise.

O presidente da França, Emmanuel Macron, também falou por telefone com Putin ontem por uma hora e 45 minutos, segundo o Palácio do Eliseu. A chamada foi por iniciativa de Macron, e Putin disse que alcançará “seus objetivos” na Ucrânia “através de negociação ou guerra”. Segundo o Eliseu, o líder russo estava “muito determinado a alcançar seus objetivos”, incluindo “o que chama de ‘desnazificação’ e neutralização da Ucrânia”.

DIVERGÊNCIA SOBRE CIVIS

Macron pediu a Putin que seu Exército não ponha civis em perigo, algo que o líder russo nega estar acontecendo. O francês respondeu dizendo que é “o Exército russo que está atacando” e que ele “não tem motivos para acreditar que o Exército ucraniano esteja colocando civis em perigo”.

Já o premier israelense, Naftali Bennett, disse ontem que tentará continuar mediando entre a Ucrânia e a Rússia mesmo que um acordo seja improvável. Bennett teve um encontro de três horas no sábado em Moscou com Putin, e disse que também falou três vezes com o premier ucraniano.