Correio Braziliense, n. 22720, 04/06/2025. política, p. 4

Em Meio À Crise, Lula Entra Em Campo

Rafaela Gonçalves, Victor Correia

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou ontem, de última hora, uma coletiva de imprensa para divulgar ações de seu governo e aplacar crises em andamento, como a causada pelo aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). A entrevista ocorreu pela manhã, pouco antes de Lula seguir para almoço com os presidentes do Congresso e da Câmara que tinha, no cardápio, alternativas ao decreto que elevou o IOF.

Após fazer uma longa introdução sobre as conquistas de seu governo e a pauta da viagem que inicia hoje à França, Lula passou a responder às mais diversas questões trazidas pelos repórteres. Uma dessas perguntas tratou dos ataques do governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. “É inadmissível que um presidente de qualquer país do mundo dê palpite sobre a decisão da Suprema Corte de um outro país”, criticou Lula. “Se você concorda ou não concorda, silencie. Porque não é correto dar palpite”, completou. O governo norte-americano manifestou que avalia sanções ao ministro do STF por censura e perseguição política a empresas americanas. “Os Estados Unidos precisam compreender que o respeito à integridade das instituições de outros países é muito importante”, enfatizou.

Sem citar o nome, Lula indicou que Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos, está fazendo “terrorismo” no exterior. “É lamentável que um deputado brasileiro, filho do ex-presidente, esteja lá para convocar os Estados Unidos a se meter na política externa do Brasil. Isso que é grave, é isso que é uma prática terrorista. Uma prática antipatriótica”, ressaltou. Ainda na esfera internacional, o petista voltou a condenar a ofensiva de ataques de Israel na Faixa de Gaza, e afirmou que o governo israelense precisa “parar com o vitimismo”. “O que está acontecendo na Faixa de Gaza é um genocídio, é a morte de mulheres e crianças que não estão participando de guerras”, reafirmou. “É exatamente por conta do que o povo judeu sofreu na história que o governo de Israel tinha que ter respeito e humanismo com o povo palestino”, lembrou o petista. “Eles tratam palestinos como povo de segunda classe. E vem dizer que isso é antissemitismo? Precisa parar com esse vitimismo”, acrescentou. Recentemente, Lula foi acusado pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) de promover o antissemitismo entre seus apoiadores, pelas críticas que faz às ações de Israel.

Lula disse, ainda, que “certamente” vai discutir os conflitos, como o de Gaza, com o presidente francês, Emmanuel Macron, em sua visita ao país. Ele embarcou para a França ontem à noite, e ficará uma semana no país europeu. Segundo Lula, o encontro deve servir para discutir assuntos de interesses globais. “Certamente vamos discutir a guerra da Rússia e da Ucrânia, certamente vamos discutir o massacre do Exército de Israel à Faixa de Gaza, certamente vamos discutir o Acordo União Europeia-Mercosul, certamente vamos discutir coisas na área da defesa”, declarou.

As declarações se dão em meio ao entendimento de que o presidente precisa “voltar a falar mais”, como porta-voz principal dos feitos do governo. Sobre a crise instalada pelo decreto do IOF, o presidente negou que tenha havido um erro do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao fazer o anúncio, sem conversar com o Legislativo. “Não acho que tenha sido erro, foi o momento político. Foi o que eles tinham pensado naquele instante.” O petista não falou sobre a possibilidade que está sendo ventilada de desvinculação do salário mínimo e dos pisos da Saúde e da Educação. “Eu preciso ver qual é a proposta. As pessoas estão discutindo e vão me apresentar, a reunião está durando há dois dias”, disse. Lula defendeu, ainda, que a discussão seja feita junto às lideranças. “É dar um voto e um crédito para os nossos líderes”, disse. “Toda vez que a gente toma uma atitude sem conversar com as pessoas que vão ter que nos defender e defender a propósito, a gente pode cometer erros”, completou.