O GLOBO, n 32.354, 07/03/2022. Política, p. 04

Deputados pedem cassação de ''Mamãe Falei'' à Alesp

Guilherme Caetano


Documento teve 15 assinaturas. Presidente do Conselho de Ética vê reação mais dura do que em caso de importunação sexual

Passado mais de um ano do caso de importunação sexual praticado por Fernando Cury (sem partido) contra a colega Isa Penna (PSOL), a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) se vê no meio de outra crise provocada pela conduta machista de um deputado. Desta vez, o alvo é Arthur do Val (Podemos), por conta de falas sexistas contra refugiadas da Ucrânia. Parlamentares consideram o episódio ainda mais grave que o anterior, e um pedido de cassação foi apresentado ontem.

A representação para cassar o mandato de Do Val por quebra de decoro parlamentar foi assinada por 15 deputados, de siglas como PT, PSOL, PCdoB, PL e PSDB.

Na sexta, em áudios vazados, o deputado foi flagrado referindo-se às ucranianas de forma pejorativa, dizendo que seriam “fáceis porque são pobres”, em meio à guerra promovida pela Rússia.

O pedido de cassação diz que a “sordidez dos áudios é ainda mais revoltante quando contextualizada no momento vivido pela Ucrânia e seu povo”. Além dessa representação, outros pedidos devem ser apresentados hoje. A intenção é juntá-los em um só documento para dar entrada no processo.

A presidente do Conselho de Ética, Maria Lúcia Amary (PSDB), afirmou ter recebido diversos telefonemas de colegas “preocupados” com a repercussão do caso.

— Minha impressão é que esta situação pode ser considerada mais grave (do que o caso de Cury). Desta vez estou vendo mais homens se manifestarem. Talvez seja por causa da guerra, existe uma comoção mundial — afirmou ao GLOBO.

No caso da importunação sexual, o conselho aprovou suspensão de 119 dias para Cury, filmado apalpando os seios de Isa Penna no plenário da Alesp em dezembro de 2020. O prazo da punição foi visto como manobra para manter o funcionamento do gabinete parlamentar, com todos os assessores. Se ele ficasse mais de 120 dias afastado, perderia o benefício.

Além da pressão por uma punição para Do Val, deputados avaliam que o fato de ele não pertencer a grupos políticos de peso na assembleia pode facilitar o caminho para a punição.

Ontem, perguntando sobre o caso por apoiadores no Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro disse que a fala de Do Val foi “tão asquerosa que nem merece comentário”.