Valor Econômico, v. 22. n. 5424, 25/01/2022, Brasil, A2
Ômicron e agro menos dinâmico levam Ibre a cortar projeção do PIB
Anaïs Fernandes
Ainda que o surto da ômicron deva ser menos letal e prolongado do que o de outras variantes do coronavírus, a nova onda de contágio pode atrasar um pouco a continuidade de normalização dos serviços esperada para o primeiro trimestre deste ano. Isso, somado ao cenário menos positivo na agropecuária do que o antecipado, fez o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) ajustar sua perspectiva de alta do PIB brasileiro em 2022 de 0,7% para 0,6%, conforme detalhado na edição de janeiro do Boletim Macro, antecipado ao Valor.
“Já tive uma visão mais otimista em relação ao primeiro trimestre, não porque tenha uma visão otimista para o ano, mas seria um pouco a continuidade da história de normalização dos serviços mais afetados pela pandemia, serviços públicos, prestados às famílias, de educação”, explica Silvia Matos, coordenadora do boletim.
O FGV Ibre manteve sua previsão de crescimento de 0,6% para o PIB do quatro trimestre de 2021 e de 4,6% no ano. Após surpresas negativas com os dados de atividade em outubro, os números melhores de novembro no comércio e em serviços reforçaram a percepção de que a volatilidade é elevada, mas há espaço para avanço do PIB no quarto trimestre, diz Matos. “Acho que o período foi ainda de normalização e seria muito estranho se fosse muito fraco. Mas era também para a gente estar crescendo muito mais”, afirma.
Economistas já perceberam que, conforme a pandemia “sai um pouco de cena”, diz Matos, ocorre a normalização e a atividade reage. Foi o que se deu com o avanço da vacinação e a queda nos números de casos e óbitos nos últimos meses de 2021. “Poderia gerar a visão de que o primeiro trimestre também teria continuidade desse processo, mas acho que a ômicron atrapalha um pouco. Talvez, a visão, agora, seja de uma normalização mais espalhada ao longo do trimestre”, avalia.
Indicadores de mobilidade, segundo ela, apontam maior restrição neste início de ano, e alguns antecedentes para setores como alimentação e hotelaria também sinalizam impacto. “Janeiro, com certeza, vai ser pior do que esperaria e fevereiro ainda deve sofrer alguns efeitos”, afirma.
Os números preliminares da confiança empresarial de janeiro mostram piora da percepção sobre a situação corrente dos negócios, “sinalizando uma possível relação com o impacto dos surtos de influenza e da variante ômicron sobre a demanda por bens e serviços, e na saúde de seus próprios colaboradores”, escrevem Aloisio Campelo, Rodolpho Tobler e Viviane Seda Bittencourt no boletim. “Já o aumento do pessimismo em relação aos próximos meses parece refletir as incertezas que pairam sobre o cenário econômico e político para 2022.” As prévias de janeiro do Índice de Confiança Empresarial (ICE) e do Índice de Confiança do Consumidor (ICC) estão em 91,6 e 72,6 pontos, respectivamente.
Devido ao surto de novos casos, houve cancelamento de eventos e de festas de Carnaval. “Com o aumento da cautela dos consumidores, as expectativas dos segmentos mais sensíveis ao consumo presencial, como os prestados às famílias, foram gravemente afetadas”, afirmam. Até a construção, único setor que havia apresentado resultado positivo em dezembro, já sinaliza queda da confiança na prévia.
A experiência de outros países atingidos primeiro pela ômicron, como África do Sul e Reino Unido, sugere que em torno de um mês após o número de casos começar a subir, o pico da transmissão é atingido e a onda perde força, com rápida redução no número de casos, aponta o boletim. “Março, abril deve normalizar”, diz Matos, sobre as perspectivas para a atividade.
O FGV Ibre projeta alta de 0,5% no PIB do primeiro trimestre deste ano. O número poderia ser até um pouco maior se, além de não ter a ômicron, as previsões iniciais para agropecuária tivessem se confirmado, indica Matos. A projeção do Ibre para o PIB agro em 2022 foi revista de alta de 5% para 3,5% no boletim atual. O fim de 2021 parece mais positivo para o setor, mas houve redução na previsão da safra de grãos, diz o texto.
A agropecuária é um elemento que mexe também nas perspectivas inflacionárias. O Ibre projeta alta de 5,2% para o IPCA deste ano, mas deve rever o número para cima, segundo Matos. Por um lado, aponta ela, a economia está “com o freio de mão puxado” e sem aumentos salariais tão fortes.
A taxa de desocupação recuou de 12,6% em setembro para 12,2% em outubro, na série com ajuste, e deve cair novamente para 12% no trimestre móvel seguinte, mas a renda média efetivamente recebida sofre fortes perdas reais e está em nível menor do que o de setembro de 2017, observa Daniel Duque no boletim. Para além da inflação, um componente setorial - com recuperação concentrada em empregos informais e de menor qualificação - pode impactar negativamente os salários. Separando o “efeito nível” e o “efeito composição”, Duque identificou, porém, que as mudanças setoriais tiveram papel menor (pouco menos de 1%) na queda da renda média.
Além de um orçamento familiar menor como fator baixista para a inflação, a ômicron ajuda a atrasar um pouco a normalização dos preços em serviços, diz Matos. Mas a inflação de bens industriais segue tensionada e pode haver novos choques. “Tendo alimentos mais pressionados por situações climáticas, bem como o petróleo com preços surpreendendo para cima, o viés é de uma inflação mais alta. O IPCA poderia, sim, ficar mais próximo de 6%”, afirma. É por isso que o FGV Ibre prevê que o Banco Central vai levar a Selic a 12,25% e manter essa taxa até o fim de 2022.
A onda de contaminação, ainda que breve, em um ambiente eleitoral, com desaceleração das atividades cíclicas, pode incentivar ampliação do gasto público, resumem Matos e Armando Castelar Pinheiro no boletim.