Valor Econômico, v. 22. n. 5424, 25/01/2022, Opinião, A13
Banda larga, problema para o metaverso
Leo Lewis
Certo dia, no início de dezembro de 2021, por volta das 20h30, espectadores de sofá no Reino Unido trucidaram um recorde que todos queriam ver ser quebrado - e ao mesmo tempo temiam. Naquela noite, pela primeira vez, a Amazon Prime exibiu ao vivo de forma simultânea seis jogos de futebol da primeira divisão, a Premier League. Em consequência, o tráfego da internet no Reino Unido (já sobrecarregado por um país trabalhando de forma remota e protegendo-se entre quatro paredes da pandemia) teve um pico de 25,5 terabits de dados por segundo.
Foi um tráfego muito superior à capacidade que a operadora britânica de telecomunicações BT garantia ser capaz operar e, por certa margem, o maior já registrado no Reino Unido. Para a Amazon, a Premier League, os operadores de telecomunicações, as produtoras de conteúdo e os consumidores, o recorde foi um marco histórico e emocionante do potencial da rede - mas também uma mostra preocupante de suas limitações.
A implantação da fibra de banda larga fornece capacidade teórica, mas o fator limitante serão as redes operadas pelas teles. A tecnologia pode resolver o problema, mas em um prazo muito maior do que imagina a atual geração de animadores de torcida do metaverso
Naquela noite, a rede da BT conseguiu se manter rápida. Mas, para o longo prazo, o episódio joga uma sombra sobre as ambições das maiores empresas do mundo (inclusive a megaofensiva da Microsoft, de US$ 75 bilhões, sobre a fabricante de jogos eletrônicos Activision Blizzard) e sobre o mais tentador sonho no momento do mundo da tecnologia.
Se as primeiras semanas de 2022 servem de indicador, está difícil chamar a atenção de grandes partes do mundo empresarial se não houver alguma menção ao metaverso. O futuro dos testes de colisões de veículos, confidenciou o fundador de uma startup de engenharia automotiva, está em simulações no metaverso, sem necessidade de bonecos de teste. O investimento imobiliário, disse um estrategista em renda variável que trabalha em Hong Kong, inevitavelmente se estenderá à construção de “gêmeas digitais” das propriedades existentes. O grande renascimento da emblemática marca Hello Kitty, disse o executivo-chefe da japonesa Sanrio ao “Financial Times”, depende de torná-la onipresente no metaverso.
A lista continua. Para alguns, o termo é usado apenas para falar de forma abreviada do rumo mais imersivo e invasivo que a internet parece estar tomando. Para outros, em particular, para as vozes das empresas de mídia social e de jogos eletrônicos que gostam de propagandear o termo - se trata de uma previsão bem explícita, de que uma proporção cada vez maior de nossas horas de trabalho e de lazer se transferirá a mundos digitais paralelos e a cenários digitais.
O anúncio na semana passada pela Microsoft, de que planejava comprar a Activision (uma transação que, suspeitam muitos analistas, poderia revolucionar o mercado de jogos eletrônicos) entra na segunda categoria. A aquisição, segundo o executivo-chefe da Microsoft, Satya Nadella, no comunicado que acompanhou o anúncio, tem por objetivo acelerar as operações da companhia na área de jogos na nuvem e “proporcionar os tijolos para construir o metaverso”.
Não importa qual seja sua lógica econômica, a oferta serviu para cristalizar a ideia de que o metaverso é o lugar onde se darão todas as lutas de poder, assim como as rivalidades realmente interessantes do mundo da tecnologia. As ações da Sony caíram bastante após a notícia da oferta. A jogada da Microsoft parece ter sido arquitetada para eclipsar a gigantesca combinação de jogos, música, filmes e realidade virtual do colosso japonês, que, aos olhos dos investidores, parecia ser um conjunto perfeito já pronto para o metaverso.
Ainda assim, toda essa poesia especulativa sobre o que pode eventualmente ser possível no metaverso está dando um passo maior do que a perna, diante de uma realidade muito mais trivial, segundo especialistas nas redes de dados das quais depende seu futuro. Um mundo virtual totalmente funcional, ou mesmo apenas uma experiência imersiva em tempo real e de alta definição, exigirá uma capacidade muito, muito maior de transmissão de dados entre o consumidor e a rede do que a disponível hoje nas residências ao redor do mundo. Permitiu-se que a fantasia do metaverso florescesse, acrescentam esses especialistas, antes de qualquer debate significativo sobre como isso acontecerá na prática e sobre quem (os usuários, as empresas de telecomunicações ou os construtores do metaverso) precisa pagar pela infraestrutura.
Em 2020, já com um mês de pandemia, o diretor de tecnologia da BT procurou tranquilizar o Reino Unido dizendo que, embora o trabalho em casa tivesse aumentado o tráfego na rede fixa para um pico de 7,5 terabits por segundo, ainda estava longe dos 17,5 terabits por segundo que “a rede podia suportar”, de acordo com as verificações da empresa.
Depois de quase dois anos e depois de conversas e mais conversas sobre o metaverso, a animação da BT saiu de cena. A implantação da fibra de banda larga fornece capacidade teórica, mas o fator limitante serão as redes operadas pelas empresas de telecomunicações. Marc Allera, executivo-chefe da divisão de consumo da BT, escreveu no blog, no dia seguinte ao recorde de 25,5 terabits por segundo, que a empresa prevê problemas. Ele não é o único: empresas de telecomunicações por todo o mundo estavam enfrentando dores de cabeça semelhantes antes mesmo que os “vendedores” do metaverso começassem a aumentar o tom da voz. A capacidade de expansão do conteúdo, escreveu Allera, não é infinita e “o crescimento exponencial de dados, no futuro, ultrapassará o que se pode esperar que construamos de forma razoável - ou, de fato, esperar que os consumidores precisem pagar”.
Existe a tentação de interpretar esse ponto de vista como uma espécie de malthusianismo digital: como um alerta que, embora atualmente legítimo, será solucionado pela tecnologia. Isso ainda pode ocorrer, mas será em um prazo muito maior do que imagina a atual geração de animadores de torcida do metaverso.