O GLOBO, n 32.354, 07/03/2022. Mundo, p. 21

RUSSOS DESAFIAM PROIBIÇÃO



DE ACORDO COM ONG, 4.600 PESSOAS FORAM PRESAS EM ATOS ANTIGUERRA

Cerca de 4.600 pessoas foram detidas ontem em cerca de 60 cidades russas em protestos contra a invasão da Ucrânia ordenada pelo presidente Vladimir Putin, de acordo com um grupo independente baseado na Rússia que monitora protestos. A ONG OVD-Info afirmou que as prisões ocorreram de São Petersburgo ao extremo Leste. Cerca de 1.700 delas ocorreram em Moscou e 750 em São Petersburgo. Ativistas da oposição postaram vídeos mostrando protestos e prisões em cidades da Rússia. A mesma organização havia relatado antes 6 mil prisões em atos públicos desde o início da guerra, em 24 de fevereiro.

Agências de notícias internacionais não conseguiram verificar os números de forma independente. Manifestações sem autorização prévia estão proibidas no país.

— Os parafusos estão sendo totalmente apertados. Estamos testemunhando censura militar — disse Maria Kuznetsova, porta-voz da OVD-Info, à agência Reuters, por telefone de Tbilisi, capital da Geórgia. —Estamos vendo protestos bem grandes, mesmo em cidades siberianas, onde raramente temos esse número de prisões —disse Kuznetsova.

Um vídeo postado nas mídias sociais mostra um manifestante em uma praça na cidade de Khabarovsk gritando: “Não à guerra, como você não tem vergonha?" antes de dois policiais o deterem. A polícia usou alto-falantes para dizer a um pequeno grupo de manifestantes na cidade: “Respeitados cidadãos, vocês estão participando de um evento público não autorizado. Exigimos que se dispersem”.

A mídia controlada pelo Estado ficou em silêncio sobre os protestos. Um dos principais opositores do Kremlin, Alexei Navalny, que está preso por uma acusação de fraude que ele alega ser política, havia convocado atos para ontem contra a invasão, em uma postagem no Facebook.

TIK TOK SUSPENDE VÍDEOS

Na sexta-feira, Putin sancionou uma lei que prevê até 15 anos de prisão para quem publicar “desinformação” sobre a guerra, e vários veículos independentes russos, como a Rádio Eco de Moscou, o site Meduza e a TV Chuva, tiveram suas operações suspensas ou fecharam. Neste domingo, a página do site Mediazona foi bloqueada pelo órgão regulador das comunicações no país.

Depois da lei, veículos ocidentais como a BBC, a CNN e a agência Bloomberg suspenderam suas atividades jornalísticas na Rússia, e o mesmo foi feito pelo aplicativo Tik Tok ontem, suspendendo a transmissão ao vivo de vídeos. Os veículos argumentaram temer que seus jornalistas — e, no caso do TikTok, os usuários — enfrentassem processos criminais sob a nova lei.

Dmitri Muratov, jornalista que dividiu com a filipina Maria Ressa o Prêmio Nobel da Paz no ano passado, disse que seu jornal Novaya Gazeta pode estar prestes a fechar também. Ele disse que teve que retirar do ar reportagens sobre a guerra, que o governo russo só autoriza a chamar de “operação militar especial”.

SEM PESQUISAS CONFIÁVEIS

A agência de notícias russa RIA mostrou imagens de apoiadores do Kremlin dirigindo em Moscou com bandeiras russas e exibindo letras Z e V, usadas em tanques na Ucrânia, e que estão associadas às expressões “Pela vitória” e “Força pela verdade”. O patriarca Cirilo I, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, se alinhou ao Kremlin ao dizer que os valores russos estão sendo testados pelo Ocidente, que, segundo ele, oferece apenas consumismo e a ilusão de liberdade.

É difícil medir o quanto a guerra é impopular na Rússia porque institutos independentes, como o Levada, não estão divulgando pesquisas. Institutos ligados ao Kremlin dizem que a popularidade de Putin aumentou depois da guerra. O instituto FOM, que fornece pesquisas para o governo, disse que a aprovação de Putin subiu 7 pontos percentuais para 71% na semana da invasão.