O GLOBO, n 32.354, 07/03/2022. Mundo, p. 20
CONTRASTE COM ONDAS ANTERIORES
Gabriel Morais
LESTE EUROPEU AGORA ABRE BRAÇOS PARA UCRANIANOS
Enquanto a Polônia anunciou gastos de milhões de dólares na construção de uma cerca em sua fronteira com a Bielorrússia após imigrantes da África e do Oriente Médio tentarem entrar no país em 2021, abriu as portas para centenas de milhares de refugiados da Ucrânia, levantando a quarentena exigida para quem chega de fora da União Europeia e oferecendo vacinas contra a Covid.
As boas-vindas do governo polonês aos ucranianos que fogem da invasão russa ilustra como alguns países, em especial do Leste europeu, estão atuando de maneira oposta à adotada em ondas anteriores de refugiados — particularmente a de sírios em 2015. O êxodo atual é considerado um dos mais rápidos deste século, com mais de 1,5 milhão de pessoas fugindo da Ucrânia desde a invasão russa de 24 de fevereiro até ontem, segundo a ONU.
—Esta é a crise de refugiados que mais cresce na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial — disse Filippo Grandi, alto comissário da ONU para refugiados.
Se há três meses o primeiro ministro ultranacionalista húngaro, Viktor Orbán, afirmou que “não vamos deixar ninguém entrar”, em resposta a uma decisão da Justiça da UE que determinou que as políticas de imigração húngaras iam contra as leis do bloco, agora ele diz que “estamos deixando todos entrarem”. O país, que já recebeu mais de 169 mil pessoas — atrás apenas da Polônia, com mais de 885 mil — abriu um corredor humanitário, autorizando que refugiados entrem processar antes o pedido de asilo.
Na Áustria, o atual chanceler, quando era ministro do Interior, disse que não aceitaria refugiados afegãos após o Talibã retomar o poder, em agosto do ano passado. Na atual crise, Karl Nehammer afirmou que “com certeza acolherá refugiados se necessário”. Afinal, segundo ele, “é diferente”.
—Estamos falando de ajuda de vizinhos —explicou na TV.
‘INTELIGENTES E EDUCADAS’
Já o primeiro-ministro da Bulgária, Kiril Petkov, disse que a questão é que “esses não são os refugiados a estamos acostumados”:
— Essas pessoas são inteligentes, educadas. Essa não é a onda de refugiados a que estamos acostumados, de pessoas que não tínhamos certeza sobre suas identidades, com passado desconhecido, que poderiam até ser terroristas.
Analistas acreditam que essa receptividade pode ser fruto, pelo menos em parte, da tentativa de sublinhar a agressão russa, que toca especialmente os países do Leste que foram parte do antigo bloco soviético. No entanto, há outro fator intrínseco.
— É difícil não ver que os ucranianos são brancos, europeus e em sua maioria cristãos — disse ao New York Times Serena Parekh, professora da Northeastern University, em Boston, e autora de “No refuge: ethics and the global refugee crisis” (“Sem refúgio: ética e a crise global de refugiados ”). —De certa forma, a xenofobia que emergiu nos últimos dez anos, particularmente depois de 2015, não está em jogo nesta crise da maneira que tem sido para os refugiados vindos do Oriente Médio e da África.
CONSERVADORISMO
Outros fatores também podem explicar a diferença na recepção, explica Olivier o Angeli, professor de Ciências Política na Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, e coordenador do centro de estudos Fórum Mercator para Migração e Democracia. Um deles é sociológico: o fato de os países para onde os ucranianos estão indo não terem experiências com refugiados de fora do continente, que se concentram em geral nas nações do Mediterrâneo e da Europa Ocidental. O outro seria cultural: essas nações são mais conservadoras, tendo assim uma abordagem menos liberal em relação à diversidade social.
Angeli explica que a Polônia já é lar de mais de um milhão de ucranianos, ou seja, eles já estão integrados à sociedade polonesa, não despertando nenhum sentimento de “grande perigo”. Há também uma questão de solidariedade, já que os poloneses veem a Rússia como um inimigo comum.
— Na Polônia, por motivos históricos, sempre houve uma espécie de medo ou ansiedade sobre a influência russa. Isso é comum para a maioria dos países do Centro e do Leste da Europa, mas na Polônia é provavelmente mais forte—disse.
No caso da Hungria, a história é diferente. Para alguns analistas, Orbán —que já chamou refugiados de “ameaça” e aprovou uma lei para expulsá-los sumariamente — pode estar tentando enviar mensagens para diferentes camadas do eleitorado, às vésperas das eleições parlamentares de 4 de abril nas quais, segundo pesquisas, seu partido teria apena suma leve vantagem na disputa com a oposição, ques e unificou para derrotá-lo. Orbán não alterou completamente sua posição anti-imigração. O governo abriu suas fronteiras para ucranianos, mas há críticas de que não existe esforço para ajudá-los a chegar em solo húngaro.
Num olhar mais amplo sobre a União Europeia, o bloco aprovou na semana passada a concessão aos ucranianos de uma via rápida de refúgio por três anos. É a primeira vez que a diretiva foi acionada desde sua criação pelo bloco, em 2001. Segundo uma autoridade da UE ouvida pelo Guardian, considerou-se usar o mecanismo na crise de 2015 e 2016, quando mais de um milhão refugiados do Oriente Médio chegaram à Europa, mas a decisão foi contrária pela situação ser “diferente”. De acordo com a autoridade, a medida foi projetada para uma “uma nacionalidade” e “não teria resolvido os problemas naquela época”, quando aos sírios se misturavam afegãos, iraquianos e africanos.