O GLOBO, n 32.354, 07/03/2022. Saúde, p. 08
SEM TRATAMENTO
Melissa Duarte e Renata Mariz
Medicamentos aprovados para combater e evitar Covid seguem fora da rede pública
A pandemia tem dado um pouco de trégua, mas os cuidados com a infecção pelo coronavírus seguirão por muitos e muitos meses. Ainda assim, o Ministério da Saúde ignora medicamentos, coquetéis e associações de anticorpos que podem ajudar no tratamento. Um ano após a aprovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do primeiro remédio para a Covid-19, nenhum está disponível na rede pública.
A pasta planeja rediscutir o tema em reunião interna hoje. Só depois a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), responsável por definir tratamentos do SUS, deve voltar a debater a indicação.
A Anvisa concedeu autorização de uso emergencial a sete medicamentos, que incluem anticorpos monoclonais e associação de anticorpos. Porém, suspendeu o aval do banlanivimabe + etesevimabe, da Eli Lilly, em fevereiro, já que a empresa não entregou dados de eficácia contra a Ômicron.
No último protocolo, a Conitec avalia que o benefício dessas terapias não justifica a indicação por critérios de “alto custo, baixa experiência de uso, incertezas em relação à efetividade e a sua indisponibilidade no sistema de saúde”. A indicação pode mudar com as novas reuniões.
— Como é um pequeno número de pacientes, não vai onerar o governo — afirma o professor de imunologia do Instituto de Ciências
Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) Antônio Condino Neto. — Se pacientes imunodeprimidos que não conseguiram se beneficiar da vacina como deveriam tivessem acesso a esses medicamentos, é claro que mortes poderiam ter sido evitadas.
SEM PREVISÃO
Na mira do governo para possíveis aquisições, está o Evusheld, a mais recente aprovação da Anvisa. Desenvolvida pela AstraZeneca a partir de anticorpos humanos, a droga é o primeiro tratamento que pode prevenir a infecção por coronavírus. A indicação do laboratório se dá para imunodeprimidos a partir de 12 anos. Ao GLOBO, a empresa confirmou o diálogo com o governo federal, mas não forneceu previsões de quantidade e data de entrega. Os Estados Unidos têm acordo para 1,7 milhão de doses.
Para o professor de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda, é “inadequado” que o ministério não tenha incorporado os remédios até o momento, o que vai na contramão de outros países.
— São super necessários, principalmente para pessoas com maior risco. Se tivéssemos medicações distribuídas gratuitamente, como os Estados Unidos estão propondo nas farmácias, poderíamos tratar a população geral ou pessoas com comorbidades, imunossuprimidos e idosos—pontua.
Para o pesquisador, falta agilidade nas discussões.
—A gente não vê esse debate acontecer dentro do ministério. A Anvisa está aprovando algumas medicações, mas também de forma lenta — critica Croda, ex-diretor de Vigilância em Saúde do ministério.
Interlocutores ligados à Conitec afirmaram ao GLOBO que a discussão sobre o uso de antivirais e imunobiológicos só deve voltar à mesa depois que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, decidir a respeito de protocolos anteriores. No último, o comitê também contraindicou o uso do “kit Covid”, composto por medicamentos comprovadamente ineficazes contra aC ovid,m asa recomendação acabou barrada pelo então secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos (SCTIE), Hélio Angotti Neto.
Um dos medicamentos aprovados pela Anvisa, o REGN-COV2, formado por casirivimabe e indevimabe, teve parecer da fabricante, a Roche, em dezembro, atestando que o produto “não mantém atividade neutralizante contra a variante Ômicron ”. Já o Paxlovid, da Pfizer, está sob análise da Anvisa desde o mês passado.
RESPOSTA DA PASTA
Em nota, o ministério destacou que a recomendação final foi pela não incorporação do rendesivir, do indevimabe e casirivimabe (avaliada em duas ocasiões e, em ambas, com recomendação desfavorável), do regdanvimabe (por descumprimento de requisitos legais). Não houve pedido para submissão do sotrovimabe e o processo sobre o baricitinibe está em análise, comunicou a pasta.