Correio Braziliense, n. 22723, 07/06/2025. Política , p. 2

Lula: com IA, eleição vai ser 100% de mentira

Vanilson Oliveira, Maiara Marinho

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou para os riscos da manipulação digital por inteligência artificial (IA) e defendeu a criação de mecanismos globais de governança para frear a desinformação. A declaração ocorreu durante a cerimônia em que o chefe do Executivo recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Paris 8, um dos compromissos mais simbólicos da visita oficial dele à França.

No discurso, que durou mais de uma hora, Lula criticou o impacto da tecnologia sobre os processos democráticos em todo o mundo. "Nós estamos inventando uma coisa chamada inteligência artificial. Imagina o que vai ser uma campanha eleitoral com inteligência artificial? Vai ser 100% de mentira", enfatizou.

Lula também anunciou que o tema será tratado na reunião do Brics — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, em 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro. Segundo ele, o objetivo é evitar a concentração do poder tecnológico nas mãos de grandes corporações.

"Em tempos de negacionismo, o saber deve ser garantido como um bem comum. A inteligência artificial está revolucionando o modo de aprendizado, de vida e de proteção. As oportunidades que se abrem são ilimitadas, mas a ausência de regulação das redes digitais só interessa ao extremismo. A cúpula do Brics vai adotar uma governança sobre inteligência artificial", destacou.

Ação contra Moraes

A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou, nesta sexta-feira, o escritório do órgão, nos Estados Unidos, para apurar a existência de novas ações judiciais contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A iniciativa ocorreu após Moraes se tornar alvo de uma nova ação judicial, aberta pelas empresas Rumble e Trump Media & Technology Group na Justiça americana. As companhias querem a responsabilização do magistrado por suposta censura a cidadãos e empresas americanas. O STF não comentou o assunto.

Em fevereiro, as duas companhias apresentaram uma ação nos EUA contra Moraes após o ministro determinar a suspensão da Rumble no Brasil por descumprimento de ordens judiciais. O caso aconteceu após a empresa se negar a bloquear a conta do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, investigado no Brasil por produzir e divulgar notícias falsas.

Especialista em direito penal e internacional, Hanna Gomes afirma que a AGU tem várias vias para atuar dentro de sua competência, uma vez que é a representação jurídica da União (governo federal) e seu papel inclui a defesa dos interesses do Estado brasileiro e de suas autoridades, incluindo juízes federais, em jurisdições estrangeiras quando seus atos oficiais são questionados.

"Assim, a AGU passaria a representar o ministro Moraes, atuando em sua defesa. Isso envolveria apresentar respostas à petição inicial, apresentar argumentos sobre o caso", ressaltou.  

Na avaliação da especialista, as ações judiciais contra o ministro do STF têm diferentes significados, "mas não passam de uma tentativa de deslegitimar as decisões brasileiras e enfraquecer a reputação do Judiciário brasileiro, atacando um ministro determinado". Conforme destacou, os efeitos práticos "são muito mais políticos do que legais".

Presidente “acrobata

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve, ontem, na exposição Nosso Barco Tambor Terra, do artista brasileiro Ernesto Neto, no Museu Grand Palais, em Paris. Ele foi acompanhado do presidente francês, Emmanuel Macron. Durante a visita, o chefe do Executivo brasileiro tentou reproduzir os movimentos de um acrobata que se apresentou no evento.

Sem paletó nem sapatos, Lula se deitou no chão e ergueu o corpo, equilibrando-se com os braços. Esta é a primeira viagem de Estado à França de um presidente brasileiro desde 2012 e ocorre durante o ano cultural França-Brasil.

Entenda o caso

“Ordens secretas de censura”

» A empresa Trump Media pediu à Justiça americana a responsabilização do ministro Alexandre de Moraes, do STF, pela emissão de “ordens secretas de censura extraterritorial”.

» A ação da empresa e da plataforma de vídeos Rumble alega que Moraes violou a Constituição americana ao aplicar leis do Brasil sobre liberdade de expressão a empresas dos EUA.

» O pedido feito à Justiça americana cita o inquérito que mira o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como uma evidência do “abuso de autoridade” de Moraes. A pedido da PGR, o parlamentar passou a ser investigado por suposta atuação nos EUA contra autoridades brasileiras.

» Segundo o ofício da Trump Media e Rumble, Eduardo solicitou asilo político em março. Para a PGR, o deputado licenciado tem se dedicado a conseguir do governo americano sanções a integrantes do STF, do Ministério Público e da Polícia Federal com o “intuito de embaraçar o andamento do julgamento” do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu na Corte por tentativa de golpe de Estado.

» As empresas querem que a Justiça americana declare as ordens de Moraes “inexequíveis” no território americano, por violarem a Primeira Emenda. As partes também pedem uma indenização e a responsabilidade pessoal do magistrado brasileiro. A ação conjunta tramita em um tribunal da Flórida.

“A ausência de regulação das redes digitais só interessa ao extremismo”

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República