Valor Econômico, v. 22. n. 5424, 25/01/2022, Especial, A14

Cientistas apontam “falsas polêmicas” da Embrapa

Daniela Chiaretti

 

Falsas controvérsias têm influenciado a elaboração de políticas públicas ambientais e de saúde por décadas, resultando em grandes contratempos e atrasos. Doze renomados cientistas brasileiros publicam hoje no periódico científico “Biological Conservation” um artigo em que denunciam a produção, por parte de um grupo de pesquisadores da Embrapa Territorial, de falsas polêmicas no campo da pesquisa ambiental brasileira. Consideram que o movimento causou retrocessos e teve “impactos desastrosos” para as políticas de conservação no país.

Os autores estão mergulhados no tema do artigo “The risk of fake controversies for Brazilian environmental policies” há três anos, analisando retrocessos que, consideram, foram causados pela atuação de um grupo liderado por Evaristo de Miranda, pesquisador da Embrapa desde 1980 e chefe da Embrapa Territorial por anos, até se aposentar recentemente. O agrônomo é conhecido como “o guru ambiental do governo Bolsonaro”.

“O que se vê é um desequilíbrio em que o processo científico não é valorizado na criação da política pública”, diz Raoni Rajão, professor da UFMG e líder do estudo. Diz que há uma estratégia na produção das falsas controvérsias com a “produção deliberada de dúvidas sobre ciência consensual com o intuito de atrasar, impedir ou distorcer a implantação de políticas”.

O artigo analisa controvérsias que envolveram o grupo, como a ideia de que a aplicação plena do Código Florestal (CF) de 1965 inviabilizaria a produção na maior parte do país (debate central na revisão do CF), ou que as multas ambientais são arbitrariamente aplicadas. Os autores identificaram que o grupo produz grande número de artigos não revisados por pares e publicados em revistas não científicas.

Assinam o texto cientistas renomados como o climatologista Carlos Nobre, a bióloga Mercedes Bustamante, os professores Britaldo Soares Filho (UFMG) e Gerd Sparovek (USP). Procurados, a assessoria de comunicação da Embrapa Territorial e Evaristo Miranda disseram que não iriam se pronunciar.