Valor Econômico, v. 22. n. 5424, 25/01/2022, Agro 4.0, B7
Só 5% dos cafeicultores já estão no ‘mundo 4.0’
Érica Polo
O desembarque do 5G no país, a partir deste ano, vai abrir as portas para o agronegócio 5.0 e acelerar a chegada da conectividade no campo. Para algumas culturas, o desafio nessa frente é ainda maior, caso do café. Apenas cerca de 5% dos cafeicultores chegaram ao “agro 4.0” e já utilizam soluções como aplicativos móveis e sensores, entre outras ferramentas que ganharam espaço desde a década passada.
“Não dá para ser categórico porque às vezes um pequeno produtor consegue acesso [a essas tecnologias] por meio da cooperativa, associação ou pool de agricultores. Mas, de modo geral, as soluções mais avançadas estão concentradas nesses 5% [dos cafeicultores]”, afirma Guilherme Morya, analista sênior do Rabobank e responsável pelo estudo “A tecnologia na cafeicultura: Desafios e Oportunidades”, concluído recentemente.
Em linhas gerais, fazem parte desse grupo de 5% agricultores que cultivam mais de 100 hectares. Eles respondem por 44% do volume de produção do grão no país, com base em dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ciclo 2020/21, a produção brasileira chegou a 47 milhões de sacas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Na lista das soluções que os produtores de café mais utilizam estão alternativas como o sensoriamento remoto e os drones. Mas há outras, como telemetria, manejo de irrigação e agricultura de precisão - esta, uma herança da agricultura 3.0 (desenvolvida a partir dos anos 1990). Segundo o banco, o uso dos conceitos da agricultura 2.0 e 3.0 estão mais consolidados.
Em produtores mais tecnificados e de maior escala, nota-se o emprego de muitos conceitos da agricultura 4.0, mas, na agricultura 5.0, ainda são poucas as empresas que se aventuram. “Pela representatividade que o país tem no setor globalmente, é um universo que precisaria caminhar um pouco mais rápido [no mundo tecnológico]”, comenta Morya.
Porém, reconhece o analista, é preciso enfrentar uma série de gargalos para que haja avanços. No topo da lista de desafios está a conectividade. O estudo lembra que o censo agropecuário de 2017 apontou que 70% dos produtores rurais brasileiros ainda não tinham, naquele ano, acesso sequer à internet.
Em Minas Gerais, maior região produtora de café arábica do país e do mundo, por exemplo, o 4G está em apenas 17,5% da área. “Na cafeicultura mineira, 80,2% da produção de café ocorre em áreas localizadas com até 40% de cobertura 4G”, diz o estudo. Vale dizer que a tecnologia 4G contribui para a melhor performance dos equipamentos - e as soluções do agro 4.0 abrem caminho para o agro 5.0, que é baseado em sistemas autônomos de decisão, robótica e biologia sintética.
Além do desafio da conectividade, o desenvolvimento de tecnologias específicas para o café e a capacitação do produtor integram a lista de desafios. Hoje, muitas soluções ainda são adaptadas de outras culturas. Seria positivo para o avanço que as agtechs olhassem com mais interesse para a cultura, podendo contribuir para a evolução da cadeia na corrida tecnológica, assim como contribuem as iniciativas de cooperativas, associações e empresas de extensão rural.
Morya cita em sua pesquisa que, das 1.574 agtechs que existem no país, 143 estão em Minas. O Espírito Santo, maior produtor da variedade conilon, reúne apenas 20 delas. “Embora ambos os Estados tenham relevância no mercado de agtechs, é evidente que existe uma concentração muito maior de empresas no Estado de São Paulo, motivado pela presença de um ecossistema local, em Piracicaba”, diz o analista.
Para ele, a criação de um polo de inovação nas áreas mais relevantes de café, em parceria com universidades locais, poderia promover a aceleração da capacitação do cafeicultor e também direcionar ainda mais tecnologias aplicadas à cafeicultura.