O GLOBO, n 32.355, 08/03/2022. Mundo, p. 18

De armas a lobby, EUA e aliados ajudam Ucrânia a resistir

David E. Sanger, Eric Schmitt, Helene Cooper, Julian E. Barnes e Kenneth P. Vogel


Governo americano tenta auxiliar os ucranianos sem ser visto como 'cocombatente' pela Rússia, mas sente tensão a flor da pele

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterou ontem o pedido à comunidade internacional para que forneça aeronaves militares à Ucrânia para combater a invasão russa. Os EUA vêm tentando auxiliar Kiev com armas e “equipes de cibermissão”, além de grupos de lobby em Washington, em um esforço complexo e delicado para que o país não seja visto por Moscou como um “cocombatente” — o que poderia gerar um conflito direto entre Rússia e EUA.

Em menos de uma semana, os EUA e a Otan, a aliança militar ocidental liderada por Washington, passaram mais de 17 mil armas antitanque, incluindo mísseis Javelin, pelas fronteiras da Polônia e da Romênia, descarregandoas de gigantescos aviões cargueiros militares para que possam fazer a viagem por terra até a capital ucraniana, Kiev, e outras grandes cidades. O presidente Joe Biden aprovou US$ 350 milhões em ajuda militar em 26 de fevereiro e 70% foram entregues em cinco dias.

Até agora, o foco das preocupações russas tem sido tanto em outras partes do país que as linhas de fornecimento de armas ainda não são um alvo. No entanto, poucos acreditam que isso vá durar muito.

Essas são apenas as contribuições mais visíveis. Escondidas em bases na Europa Oriental, as forças do Comando Cibernético dos EUA conhecidas como “equipes de cibermissão” estão a postos para interferir nos ataques digitais e comunicações da Rússia — mas medir sua taxa de sucesso é difícil, dizem as autoridades.

Enquanto tenta se manter longe do alcance das forças russas em Kiev, Zelensky viaja com equipamentos de comunicação criptografados, fornecidos pelos americanos, que podem colocá-lo em uma ligação segura com o presidente Biden. O equipamento foi utilizado por Zelensky no sábado à noite para uma ligação de 35 minutos com seu colega americano sobre o que mais os EUA podem fazer em seu esforço para manter a Ucrânia viva, mas sem que Washington entre em combate direto no solo, no ar ou no ciberespaço com as forças russas.

AGRADECIDO, MAS CRÍTICO

Zelensky saudou a ajuda até agora, mas vem repetindo críticas em público, afirmando que o auxilio era extremamente insuficiente para as missões que os ucranianos ainda terão.

Ele também já pediu o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia — o que implicaria abater aviões que a violassem— o que foi rejeitado pela Otan.

No sábado, a equipe do Conselho de Segurança Nacional de Biden passou a maior parte do dia tentando encontrar uma maneira de a Polônia transferir para a Ucrânia uma frota de caças MiG-29 de fabricação soviética que os pilotos ucranianos sabem pilotar. Mas o acordo depende da Polônia, em troca, caças F-16 americanos. A operação se torna mais complicada pelo fato de muitos desses caças serem prometidos a Taiwan — onde os EUA têm maiores interesses estratégicos.

Autoridades polonesas disseram que não há acordo, claramente preocupadas com a forma pela qual forneceriam os caças à Ucrânia e se isso tornaria Varsóvia um novo alvo dos russos.

À medida que as armas cheguem, e com a perspectiva do aumento dos esforços para interferir nas comunicações e redes de computadores russas, algumas autoridades de segurança nacional dos EUA pressentem que um conflito entre o Ocidente e a Rússia é cada vez mais provável.

A Ucrânia também tem recebido lobby, relações públicas e assistência jurídica gratuitamente —e está valendo a pena. Zelensky realizou uma teleconferência com membros do Congresso no sábado, pressionando por sanções mais duras à Rússia e pedindo tipos específicos de armas e outros apoios.