O GLOBO, n 32.355, 08/03/2022. Política, p. 04
PASSO A ESQUERDA
Gustavo Schmitt e Sérgio Roxo
De perfil conservador, Alckmin acerta filiação ao PSB para ser vice na chapa de Lula
Após 33 anos de filiação ao PSDB e de perfil conservador, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin praticamente sacramentou ontem sua entrada no PSB, um partido de centro-esquerda, para ser o vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição deste ano. Num encontro com a cúpula socialista, o ex-tucano recebeu garantias de que nenhuma questão regional impedirá a aliança com o petista na disputa pelo Palácio do Planalto.
Ao optar pelo PSB, Alckmin deixou para trás convite para disputar o governo de São Paulo pelo PSD, do exministro Gilberto Kassab, e de ser o vice de Lula pelo PV ou pelo Solidariedade.
A conversa ocorrida ontem, em São Paulo, teve a participação do presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, do ex-governador Márcio França, do prefeito de Recife, João Campos, e do presidente da sigla no estado, Jonas Donizette. Siqueira considerou que o encontro foi “excelente”. Indagado se a filiação de Alckmin ao PSB estava certa, o dirigente respondeu:
— Está praticamente certo. Só falta definir a data.
O vazamento da reunião antes do seu fim, porém, incomodou Alckmin. Acostumado a ser discreto em seus movimentos políticos, o exgovernador também não gostou da declaração do presidente do PSB dando sua filiação como certa.
No fim da tarde, ele fez uma publicação nas redes sociais para deixar claro que as conversas com o PSB tinham avançado, mas que a questão não estava 100% definida. “Até a próxima semana definirei a minha filiação partidária.” No texto, diz que ainda mantém conversas com outros partidos.
Pela lei, a filiação tem que ocorrer até 2 de abril, mas a expectativa no PSB é que o anúncio oficial ocorra até uma semana antes do prazo. Durante o encontro, segundo Siqueira, Alckmin relatou que as suas conversas com Lula “estão bem encaminhadas”. De acordo com o dirigente, caberá ao petista anunciar o acerto para a composição da chapa.
—O Alckmin vai ser o candidato a vice indicado pelo PSB —afirmou Siqueira.
O dirigente assegurou que as conversas sobre a chapa presidencial não estarão vinculadas às alianças entre os dois partidos nos estados. Ele acredita que a união entre Lula e Alckmin vai ocorrer independentemente, por exemplo, de um acerto em São Paulo, onde o PSB quer lançar França como candidato a governador, enquanto o PT quer o ex-prefeito Fernando Haddad.
DISPUTA EM SÃO PAULO
Alckmin também deu a entender que não se importaria caso França e Haddad venham a se enfrentar em São Paulo. Apesar disso, a pessoas próximas, tem dito que acredita em um entendimento entre os dois.
Inicialmente, o PSB havia colocado como condição para apoiar Lula a reciprocidade do PT a seus candidatos em estados como Rio Grande do Sul e Espírito Santo, além de São Paulo. Porém, Siqueira afirmou que essa exigência foi deixada para trás.
Na conversa, que durou cerca de três horas, o ex-governador puxou um papel com anotações e quis saber a posição do PSB em cada uma das disputas estaduais do país. Também indagou a cúpula do partido sobre a possibilidade de formação de uma federação com o PT. Os dirigentes responderam que a união nesses termos dificilmente irá vingar e que os partidos devem ter uma aliança comum.
Também foi garantido a Alckmin que a sua entrada na legenda tem apoio unânime das lideranças partidárias. O ex-governador deixou o PSDB em dezembro depois de 33 anos. Era tido no seu antigo partido como um político de perfil mais conservador que a maioria dos tucanos. Agora, migrará para uma legenda de centro-esquerda.
As posições políticas de Alckmin são, inclusive, um dos motivos de críticas de petistas que se opõem à aliança. Ex-presidentes da sigla, como Rui Falcão e Luiz Marinho, lembram que o partido sempre foi oposição ao ex-governador e que ele chegou a dizer que Lula queria “voltar à cena do crime”, em referência à sua vontade de concorrer à Presidência em 2018. Nada disso, porém, deve travar o acerto.
O plano agora é preparar o discurso e organizar a cerimônia de filiação. Alckmin deseja que seu grupo político ingresse junto com ele na nova legenda. Só em São Paulo seriam dez nomes que disputariam a eleição para deputado federal.
— Possivelmente nos próximos dias teremos boas novas. Alckmin, como um homem da política que é, conversará com seu grupo político. E em seguida tornará pública a sua decisão —afirmou Jonas Donizette.
A entrada de Alckmin no PSB para ser o vice de Lula foi articulada a partir da metade do ano passado por França. Junto com Haddad, ele levou a ideia a Lula. Nos primeiros meses, as articulações foram realizados de forma discreta. Mas em dezembro, Lula e Alckmin tiveram um encontro público, em São Paulo, no jantar de fim de ano de um grupo de advogados.