O GLOBO, n 32.355, 08/03/2022. Mundo, p. 20

Amizade com a Rússia é sólida como rocha, diz China

Marcelo Ninio


Em entrevista anual, chanceler Wang Yi rejeita comparações entre Ucrânia e Taiwan, que “acabará voltando para o abraço da pátria'

Para a China, a parceria com a Rússia é uma prioridade estratégica, que será mantida mesmo sob condições internacionais adversas. Foi essa a resposta do chanceler chinês, Wang Yi, aos questionamentos que Pequim vem sofrendo por não condenar explicitamente a invasão da Ucrânia, durante uma disputada entrevista coletiva ontem em Pequim. A mensagem de Wang pode ser resumida assim: a China respeita o princípio da soberania na esfera diplomática, apoia os esforços para um cessar-fogo no campo de batalha, mas não deixará a Rússia sozinha na arena política.

A entrevista coletiva do chanceler chinês é um ritual que acontece uma vez por ano e não costuma oferecer surpresas. O governo seleciona as perguntas enviadas com antecedência pelos jornalistas. Neste ano, quem compareceu teve que fazer dois testes e passar a noite anterior isolado num quarto de hotel. E para uma entrevista virtual: o chanceler não apareceu em carne e osso, só num telão.

Mas nos dez anos de Wang no cargo, esta talvez tenha sido a entrevista que despertou maior interesse. O fato de as perguntas passarem por uma seleção prévia não significa que todas são cômodas. A escolha indica os temas que o governo tem interesse em abordar, sem ser pego de surpresa. Seguindo a linha ambivalente da diplomacia chinesa desde o início da crise, Wang deu um jeito de reconhecer os direitos soberanos da Ucrânia sem deixar de apoiar a Rússia.

É preciso “respeitar e proteger a soberania e a integridade territorial de todos os países” conforme consta da Carta da ONU, disse o chanceler, e também“ acomodar as preocupações de segurança legítimas das partes envolvidas ”. No longo prazo, é necessário “estabelecer uma arquitetura de segurança europeia equilibrada e sustentável”, afirmou Wang.

— Para resolver questões complexas é preciso ter cabeça fria e pensamento racional, não jogar gasolina no fogo, o que só piora a situação.

Questionado por um jornalista russo sobre as sanções que EUA e países europeus impuseram à Rússia e como elas poderiam afetar a relação entre Pequim e Moscou, Wang não quis deixar dúvidas de que lado está a China.

—A amizade entre os povos da China e da Rússia é sólida como rocha. Há uma brilhante perspectiva de cooperação entre os dois lados. Não importa o quão precária e desafiadora for a situação internacional, China e Rússia manterão o foco estratégico para avançar numa parceria estratégica abrangente e de coordenação para uma nova era.

SEM AMBIGUIDADE

Se sobraram ambiguidade e indiretas em certos momentos da entrevista, elas sumiram quando o assunto é Taiwan, a ilha que Pequim considera uma província rebelde. A crise na Ucrânia tem levantado comparações com o território e supostas lições que a China poderia estar tirando da reação do Ocidente. Wang rejeita comparações. Taiwan é “parte inseparável da China”, enquanto Ucrânia e Rússia são países independentes, disse.

—Algumas forças nos EUA, na tentativa de deter o renascimento da China, tem encorajado o crescimento do separatismo em Taiwan. Isso não apenas empurraria Taiwan para uma situação precária, também teria consequências insuportáveis para os EUA. O futuro de Taiwan está  na reunificação com a China, não em falsas promessas de forças externas. Taiwan acabará voltando para o abraço da pátria.