O GLOBO, n 32.355, 08/03/2022. Mundo, p. 17
Chanceleres terão lº encontro após início da invasão
Russo Lavrov e ucraniano Kuleba discutirão saídas para conflito na Turquia; Moscou abre mão de exigência de 'desnazificar' Ucrânia
Os chanceleres da Rússia, Sergei Lavrov, e da Ucrânia, Dmytro Kuleba, vão se reunir no Sul da Turquia na quinta-feira, naquelas que devem ser as primeiras conversas entre os principais diplomatas de cada país desde a invasão lançada pelo governo de Vladimir Putin ao país vizinho, em 24 de fevereiro.
O anúncio da reunião foi feito no mesmo dia da terceira rodada de negociações entre delegações da Rússia e da Ucrânia com o objetivo de alcançar um cessar-fogo. O encontro de ontem ocorreu em um local não revelado na Bielorrússia e resultou apenas em “pequenos avanços”, segundo os participantes.
Também ontem, a Rússia indicou amenizar levemente suas exigências à Ucrânia. O Kremlin admite agora a continuidade do governo do presidente Volodymyr Zelensky, tirou da pauta o que chama de “desnazificação” do país, mas exige que a Ucrânia deponha armas, mude sua Constituição para adotar um status neutro e reconheça a Crimeia (ocupada pelos russos em 2014) como território russo e as repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk, no Leste ucraniano, como independentes.
— Eles deveriam fazer emendas constitucionais se comprometendo a rejeitar qualquer objetivo de entrar em qualquer bloco — disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, ao explicar a ideia de “neutralidade” e referindo-se à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar liderada pelos EUA) e à União Europeia.— Também falamos sobre como eles deveriam reconhecer que a Crimeia é território russo e que eles precisam reconhecer que Donetsk e Lugansk são estados independentes. E é isso. Então[ a invasão] vai parar subitamente.
O anúncio da reunião foi feito pelo chanceler da Turquia, Mevlut Cavusoglu, que deve participar da reunião na cidade de Antália, à margem de um fórum diplomático. Ancara tem boas relações com Moscou e Kiev e condenou a invasão da Ucrânia, mas se opõe a sanções à Rússia.
CONDIÇÃO INDISPENSÁVEL
Também ontem, o Kremlin indicou pela primeira vez estar disposto a reduzir as exigências para interromper o seu ataque. A imposição da “desnazificação” da Ucrânia, demanda pouco clara citada desde o início da invasão, não apareceu em uma lista de condições citada por Peskov. Em geral, entendia-se que, com a exigência, o Kremlin buscava uma mudança de regime com um governo fantoche.
Peskov disse à Reuters que a Rússia comunicara à Ucrânia que estava pronta para interromper sua ação militar “sem qualquer demora” se Kiev cumprisse as condições.
— Nós realmente estamos concluindo a desmilitarização da Ucrânia. Nós vamos concluí-la. Mas o principal é que a Ucrânia cesse sua ação militar. Eles deveriam parar sua ação militar e então ninguém atirará —disse o porta-voz.
A possível redução da lista de exigências aponta para a aceitação, por parte da Rússia, de que não obterá tudo o que esperava inicialmente com o ataque. Isto se dá após sua ofensiva esbarrarem mais obstáculos do que o previsto, incluindo uma resistência inesperada e problemas logísticos.
Por outro lado, a insistência na neutralidade sinaliza que a não integração da Ucrânia à Otan segue como condição indispensável para Moscou. Um país neutro é um Estado que se mantém à parte em conflitos e evita alianças militares.
O termo, porém, é ambíguo, e os países o interpretam de forma distinta. Alguns são desmilitarizados, como a Costa Rica, enquanto outros, como a Suíça, seguem a “neutralidade armada” com Forças Armadas para autodefesa.