Valor Econômico, v. 22. n. 5424, 25/01/2022, Investe, C4

Cenário para Brasil é um pouco nublado, diz Mobius 

Bloomberg


O veterano investidor em países emergentes Mark Mobius alerta para um quadro complexo no Brasil em meio a um ambiente político doméstico incerto e o atual processo de elevação das taxas de juros. “O cenário para o Brasil é um pouco nublado, com nuvens carregadas aparecendo”, disse Mobius, que deixou a Franklin Templeton Investments em 2018 para montar a Mobius Capital Partners.

Conhecido por seu otimismo usual com mercados de economias em desenvolvimento, Mobius previu a recuperação do índice Ibovespa na segunda metade de 2020, após os ativos brasileiros terem sido esmagados no início da pandemia de coronavírus.

Desta vez, as ações brasileiras tentam se recuperar após a primeira queda anual desde 2015 no ano passado, quando o Ibovespa teve a segunda pior performance entre índices acionários ao redor do mundo. Embora os múltiplos descontados já incorporem boa parte das más notícias, pode haver espaço para uma pressão adicional, dado que as autoridades - dentro e fora do Brasil - se movem para reverter a política monetária adotada para combater os efeitos nocivos da pandemia na economia, de acordo com Mobius.

“Até certo ponto, muitas dessas variáveis foram colocadas no preço, e temos visto alguma recuperação do mercado”, disse Mobius. Mas se esses ventos contrários persistirem, “será um ambiente de mercado difícil”, afirmou em entrevista para a “Bloomberg News”.

Inflação elevada contínua, juros em alta e o impacto de novas variantes da covid-19 são os principais riscos para os mercados brasileiros neste momento, diz Mobius. A exposição a Brasil do investidor tem se mantido relativamente estável nas últimas semanas, com Fleury, Lojas Americanas e Totvs entre suas principais apostas no mercado local.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem liderado as pesquisas de opinião até agora, pode vencer a eleição presidencial marcada para outubro, segundo Mobius. “Seria perigoso presumir que uma eleição do Lula seria ruim para o mercado”, afirmou Mobius, observando que o mercado apresentou boa performance após o petista ter sido eleito pela primeira vez, no ano de 2002, depois de um período de “hesitação e medo” por parte dos investidores.