O GLOBO, n 32.355, 08/03/2022. Economia, p. 13

UE quer reduzir dependência do gás russo em 80%



EUA avaliam adotar embargo ao petróleo da Rússia, segundo fontes, e vice-premier afirma que, se isso ocorrer, barril poderá passar de US$ 300. Cotação do Brent termina o dia a US$ 123, depois de encostar em US$ 139

A União Europeia (UE) estuda maneiras de pôr fim à dependência que o bloco tem do gás russo. O plano, que deve ser apresentado hoje, poderia reduzir as necessidades de importação em quase 80% este ano, segundo duas autoridades com conhecimento do assunto.

O governo Joe Biden, por sua vez, considera proibir as importações de petróleo russo de forma isolada, sem a participação dos aliados europeus, ao menos em um primeiro momento, segundo duas fontes a par do assunto.

A Comissão Europeia, braço executivo da UE, está revisando sua estratégia energética após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em um esforço para reduzir a influência do Kremlin. As medidas incluem, entre outras, explorar novos suprimentos de gás e aumentar a eficiência energética já este ano, disse um dos funcionários, a fim de proporcionar independência do maior fornecedor de combustível fóssil da região bem antes de 2030, como inicialmente previsto.

NY EM QUEDA FORTE

Para o projeto ser bem-sucedido, demandará ação dos países-membros, muitos dos quais já estavam desconfortáveis com o investimento exigido para os planos de transição de energia da Comissão e agora lutam para conter o impacto político do aumento dos custos de energia.

—Acho que podemos apresentar amanhã (hoje) um plano que reduzirá substancialmente nossa dependência do gás russo já este ano e, em alguns anos, nos tornará independentes das importações — disse o diretor de Clima, Frans Timmermans. — Acho que isso é possível. Não é fácil, mas é viável.

Nas semanas que antecederam a guerra, uma crise no fornecimento de gás elevou os custos de energia a níveis recordes, colocando o assunto no topo da agenda da UE. Os governos europeus já gastaram dezenas de bilhões de euros para proteger consumidores e indústrias do impacto da crise.

Ontem, a cotação do petróleo sofreu uma oscilação recorde, em meio a especulações sobre um embargo americano ao óleo russo. O barril do tipo Brent, referência internacional, chegou a US$ 139,13, maior patamar desde julho de 2008, para encerrar a US$ 123,21, com alta de 4,3%.

Já o barril do WTI teve valorização de 3,2%, a US$ 119,40, maior nível em 14 anos.

Em Nova York, o Dow Jones fechou em queda de 2,37%, e o S&P, de 2,95%, a maior queda desde outubro de 2020. A Bolsa Nasdaq perdeu 3,62%.

No domingo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, afirmou que os EUA e seus aliados europeus já discutem um possível embargo ao petróleo russo. Mas ressaltou que, para isso, seria preciso garantir o fornecimento global da commodity.

O petróleo russo responde por 3% das importações americanas. Na UE, são 27%.

‘DAR DINHEIRO A PUTIN’

O senador Joe Manchin, do Partido Democrata, sugeriu que os EUA adotem um embargo sozinhos:

—É uma tolice continuarmos a comprar produtos e dar dinheiro a Putin para usar contra o povo ucraniano —disse Manchin na rede NBC. — Então por que não lideramos (o movimento)?

Na Rússia, o vice-primeiro-ministro, Alexander Novak, apontou consequências catastróficas para o mercado mundial de um embargo ao petróleo russo:

— O aumento nos preços será imprevisível, mais de US$ 300 por barril — afirmou Novak, segundo a agência RIA Novosti.

O temor dos efeitos globais está por trás da hesitação em adotar o embargo ao petróleo russo. Para John Driscoll, estrategista-chefe da JTD Energy Services, haveria forte impacto em toda a cadeia de fornecimento global do petróleo.

Novak ainda ameaçou cortar o fornecimento de gás à Europa pelo gasoduto Nord Stream 1, em retaliação ao bloqueio, pela Alemanha, da construção do Nord Stream 2, um projeto de US$ 11 bilhões. Ele afirmou que a Rússia ainda não se decidiu, mas que teria todo o direito de “espelhar” a ação alemã.

IMPOSTO PARA BANCAR PLANO

A Comissão Europeia, porém, avalia que o bloco já tem gás suficiente para passar o resto deste inverno, mesmo que haja uma interrupção abrupta do fornecimento, segundo pessoas familiarizadas com o tema. O órgão recomendará que os países-membros da UE comecem agora a encher os tanques de armazenagem para o próximo inverno.

As propostas a serem apresentadas hoje vão incluir a aceleração do Green Deal, que visa a neutralidade climática até 2050, e aumento nas importações de gás natural liquefeito (GNL) e uso de gasodutos de fora da Rússia, mais compra de gases renováveis, economia de energia e maior eletrificação. Essas ações, somadas, poderão garantir a substituição dos 155 bilhões de metros cúbicos de gás russo importados pela UE. O bloco poderia adotar impostos temporários sobre os lucros das empresas de energia para financiar essas medidas.

Mas o chanceler alemão, Olaf Scholz, disse que, por enquanto, os suprimentos russos continuam “essenciais”. A Alemanha compra da Rússia 66% do gás que usa.