O GLOBO, n 32.356, 09/03/2022. Política, p. 07

Bolsonaro vê mulheres quase integradas à sociedade



Gafe em evento voltado para o público feminino ocorre no momento em que ele tenta diminuir rejeição nesse segmento

Com um histórico de declarações consideradas machistas e misóginas ao longo de sua carreira política, o presidente Jair Bolsonaro (PL) cometeu ontem uma gafe em um evento para celebrar o Dia Internacional da Mulher. O episódio ocorre no momento em que Bolsonaro tenta diminuir sua rejeição nesse segmento, que é de 60% segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada em dezembro.

Em uma das cerimônias dedicadas ao tema ontem, o presidente citou a participação das mulheres no mercado de trabalho e afirmou que elas estão “praticamente integradas à sociedade”.

—Ou a mulher era professora ou dona de casa. Dificilmente uma mulher fazia algo diferente disso nos anos 50, 60. Hoje em dia, as mulheres estão praticamente integradas à sociedade. Nós as auxiliamos. Nós estamos sempre do lado dela. Não podemos mais viver sem ela —disse o presidente.

Bolsonaro ainda defendeu os “valores familiares” e citou um verso bíblico como referência sobre a relação entre mulher e homem:

—Assim como a mulher foi feita do homem, assim também o homem nasce da mulher e tudo vem de Deus.

As declarações de Bolsonaro suscitaram críticas de mulheres que militam na política.

—É mais uma frase que revela que Bolsonaro é desprovido de conteúdo ao falar sobre assuntos relevantes. Vivemos momentos dramáticos. Temos mais de cem mil meninas e mulheres que sofreram violência sexual, a cada dez minutos um estupro, e a cada 7 horas um feminicídio. É uma frase oca, solta, carregada de uma visão machista, sexista e que nega a realidade — afirmou Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula .

A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) ressaltou que as mulheres são as mais afetadas pelo desemprego e pela crise econômica:

— É preciso dizer que as mulheres estão totalmente integradas à sociedade, só que elas são vítimas de machismo, da desigualdade salarial, são as principais vítimas do desemprego, da crise econômica, e o que faz elas estarem nessa posição é justamente essa visão preconceituosa de que elas não são parte da sociedade, sendo que sem as mulheres não há sociedade funcionando.

PONTO FRACO

O desempenho do presidente entre o eleitorado feminino é visto por seus auxiliares como um dos pontos fracos da campanha de Bolsonaro à reeleição: não apenas a rejeição é alta, mas as mulheres também são mais reticentes em declarar voto no presidente. Em um dos cenários pesquisados pelo Datafolha, Bolsonaro tem 18% das intenções de voto entre as eleitoras, seis pontos percentuais a menos que entre os homens. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro, com 52,4%.

Desde o início do governo, o presidente ouve sugestões de pessoas próximas para investir na imagem da primeira-dama. Michelle, entretanto, quase sempre se manteve distante do dia a dia do governo, com exceção dos programas liderados por ela, como o Pátria Voluntária. Nos últimos meses, entretanto, a primeira-dama vem ganhando mais destaque. No último Natal, durante pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, ela falou por mais tempo do que Bolsonaro.

A dificuldade de Bolsonaro com o eleitorado feminino não é recente. Desde sua eleição, o presidente tem uma força maior entre os homens, possível consequência de seu histórico de polêmicas, que incluem acusações de machismo durante sua trajetória parlamentar. Um dos episódios de maior repercussão foi a discussão com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). Na ocasião, Bolsonaro disse que a congressista não “merecia” ser estuprada porque era “muito feia”.

No último domingo, entretanto, ao comentar as declarações sexistas do deputado estadual Arthur do Val (Podemos-SP), que em viagem à Ucrânia disse que as mulheres que fugiam do conflito com a Rússia eram “fáceis porque eram pobres”, Bolsonaro criticou o parlamentar.

—É tão asquerosa que nem merece comentário — respondeu o presidente quando questionado sobre o caso.

De olho nas eleições, alguns aliados do presidente chegaram a sugerir a possibilidade de Bolsonaro escolher uma mulher para vice na chapa da reeleição. Desde então, alguns nomes já circularam nos bastidores, como o da ministra Tereza Cristina, da Agricultura. A tendência, entretanto, é que Tereza seja candidata ao Senado pelo Mato Grosso do Sul.