O GLOBO, n 32.356, 09/03/2022. Economia, p. 14

Rússia decide suspender exportação de “commodities”



Kremlin deve apresentar a lista de países afetados pelas restrições comerciais até amanhã e ameaça cortar gás para a UE

Enquanto as potências do Ocidente avançam nas sanções, a Rússia ameaça com corte no fornecimento de gás para a Europa e proibição de exportação de suas matérias-primas. Moscou, no entanto, não deu detalhes sobre que itens teriam sua venda suspensa.

A ameaça de cortar o gás enviado à Europa pelo Nord Stream 1 foi feita na madrugada de segunda para terça-feira, possivelmente com o objetivo de dissuadir o anúncio, por parte da União Europeia, de um plano para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis russos.

Mas não funcionou. O presidente americano, Joe Biden, levou adiante a decisão de proibir a compra de petróleo russo pelos Estados Unidos. O Reino Unido também prometeu zerar, até o fim do ano, suas compras de petróleo da Rússia. Já a União Europeia anunciou plano para reduzir a dependência do gás russo.

‘SEGURANÇA’

Pouco depois de EUA e Reino Unido anunciarem a suspensão das compras de petróleo russo, o Kremlin emitiu uma ordem anunciando que irá restringir o comércio de alguns bens e matérias-primas, sem especificar quais são. O governo deve divulgar a lista dos países afetados pela punição até amanhã.

Segundo o decreto, o objetivo da suspensão é “ assegurara segurança da Federação Russa e o funcionamento da indústria sem interrupções.” A proibição ficará em vigor até 31 de dezembro.

No entanto, boa parte do comércio exterior russo já está paralisado, tanto pelo bloqueio de transportadoras quanto pelo crescente boicote de empresas multinacionais a operações com o país.

Moscou já havia suspendido a exportação de fertilizantes na sexta-feira. Ainda assim, teme-se que os preços de diversas commodities sejam afetados. A Rússia responde por 40% da produção global de paládio, e também é forte em alumínio e níquel.

Mas a principal exportação é de combustíveis. E o maior consumidor é a UE. O bloco importa da Rússia 40% do seu gás, 27% do petróleo e 47% do carvão que usam.

NORD STREAM

A dependência da Europa da energia russa tem sido um fator-chave nos esforços dos líderes do continente para chegar a um acordo sobre como responder à invasão da Ucrânia. Muitos políticos da UE se mantêm cautelosos com uma ação imediata, razão pela qual a Alemanha foi contra proibir a importação de petróleo da Rússia. Na segunda-feira, o chanceler alemão Olaf Scholz disse que o petróleo e o gás russos são de “importância essencial” para o bloco.

Novak afirmou que a Rússia tem outras opções para vender seu petróleo e alertou que qualquer proibição poderia ter “consequências catastróficas para o mercado mundial”, com preços subindo para US$ 300 o barril ou mais.

Em um discurso televisionado na noite de segunda-feira (horário de Moscou), o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, que também é responsável pelos assuntos de energia, afirmou que Rússia tem o direito de tomar ações que “espelhem” as sanções impostas à economia do seu país e alertou que poderia interromper os fluxos para a Alemanha ao longo do gasoduto Nord Stream 1.

Novak acrescentou que nenhuma decisão de desligar o Nord Stream 1 havia sido tomada até o momento e que o gasoduto está operando “em sua capacidade total”.

Na semana passada, o governo alemão bloqueou as operações do Nord Stream 2, cujas obras terminaram no fim do ano passado. Ontem, em depoimento no Senado, a subsecretária de Estado americana para Assuntos Políticos, Victoria Nuland, afirmou que o Nord Stream 2 “está morto”. Os EUA sempre foram contra o projeto.

Pela manhã, a cotação do principal contrato de referência de gás natural chegou a saltar 30%. Mas acabou encerrando com queda de 6,33%, para US$ 4,53 o milhão de BTUs, de acordo com a Bloomberg.