O GLOBO, n 32.356, 09/03/2022. Economia, p. 11
NA ARTÉRIA ECONÔMICA
WASHINGTON, LONDRES E BRUXELAS
EUA bloqueiam petróleo russo, e Reino Unido e UE reduzirão dependência energética
A estratégia é cortar a maior fonte de financiamento do governo russo: as exportações de petróleo e gás. Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia (UE) anunciaram ontem medidas para estrangular as finanças do Kremlin. O presidente americano, Joe Biden, anunciou a proibição da importação de petróleo, gás e carvão da Rússia. O Reino Unido aderiu ao embargo, e o primeiro-ministro Boris Johnson disse que o país eliminará gradualmente as importações de petróleo e derivados russos até o fim deste ano.
Biden e Johnson anunciaram as medidas pouco depois de a Comissão Europeia, o braço executivo da UE, divulgar seus planos para reduzir sua forte dependência das importações de gás e energia da Rússia. O objetivo é que o bloco diversifique suas fontes de energia e se torne autossuficiente “bem antes de 2030”.
— Os Estados Unidos estão mirando a artéria principal da economia russa — afirmou Biden. — Nós não seremos parte dos subsídios à guerra de Putin.
BRENT VAI A US$ 127,98
Até agora, EUA e aliados haviam poupado o setor de energia nas sanções impostas à Rússia pelo Ocidente, pois a Europa—sobretudo a Alemanha—é muito dependente do gás russo. No ano passado, o petróleo russo respondeu por apenas 3% das importações dos EUA. Na UE, segundo dados de 2019, eram 27%. No Reino Unido, as importações de petróleo e derivados da Rússia representam 8% da demanda do país.
Em reação à nova rodada de sanções do Ocidente, o presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto para banir ou restringir a venda de algumas matérias primas. A lista dos produtos, no entanto, só deve ser divulgada hoje ou amanhã.
A Rússia é um grande produtor de gás, petróleo, metais e grãos. Mas muitas dessas matérias-primas já não estão sendo exportadas, porque grandes transportadores marítimos deixaram de operar no país, e muitas empresas já não vinham comprando produtos russos.
Pela manhã, a cotação do petróleo tipo Brent chegou a passar de US$ 130, devido à expectativa de que as sanções fossem anunciadas. Mas a commodity encerrou o dia a US$ 127,98, alta de 3,87%. Já o barril do WTI registrou ganho de 3,60%, a US$ 123,70.
A proibição do governo Biden entra em vigor imediatamente para novas compras, de acordo com um funcionário graduado ouvido pela Bloomberg. Haverá ainda um período de 45 dias para encerrar, gradualmente, as entregas dos pedidos que já haviam sido feitos, disse esse funcionário, que não quis ser identificado.
Também estão proibidos quaisquer investimentos americanos no setor de energia da Rússia. Na semana passada, os EUA já haviam suspendido a exportação de tecnologia de refino para a Bielorrússia, aliada de Putin, o que sinalizava novas restrições.
As medidas de Biden devem elevar os preços dos combustíveis nos EUA, que já estão no maior patamar desde 2008. O presidente admitiu isso:
—A agressão da Rússia está cobrando um preço para todos —disse Biden. —Haverá custos aqui nos EUA. Desde o início eu disse que defender a liberdade teria um custo.
O britânico Johnson, por sua vez, afirmou que o governo vai pôr fim à dependência do petróleo russo ao longo deste ano.
“Trabalhando com a indústria, estamos confiantes de que isso pode ser alcançado ao longo do ano, dando tempo suficiente para as empresas se ajustarem e garantindo a proteção dos consumidores”, afirmou o premier em comunicado.
Ele admitiu que as medidas britânicas não terão impacto imediato na Rússia, mas ressaltou que vão “aumentar a pressão” sobre Moscou.
BUSCA POR ENERGIA LIMPA
No caso da UE, o plano é reduzir o uso de gás natural em 30% até 2030, de forma que o bloco consiga a “independência total” dos combustíveis fósseis da Rússia “bem antes” desta data. O plano também se insere nos esforços do bloco para cumprir as metas contra as mudanças climáticas. O objetivo é ampliar o uso de outras fontes de energia, sobretudo as renováveis.
—Devemos nos tornar independentes do petróleo, carvão e gás russos. Simplesmente não podemos confiar em um fornecedor que nos ameaça de maneira explícita —disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Na madrugada de ontem, Moscou ameaçou bloquear o gasoduto Nord Stream 1, que liga Europa e Rússia, como retaliação às sanções do bloco. A UE é fortemente dependente da energia russa, especialmente a Alemanha.
—Precisamos agir agora para mitigar o impacto dos crescentes custos da energia, diversificar nosso fornecimento de gás para o próximo inverno e acelerar a transição para a energia limpa — disse Ursula.
O projeto da UE inclui a busca de novos fornecedores de gás natural liquefeito(GNL), o uso de mais fontes renováveis e a redução do consumo de energia, a fim de tornar viável a implantação do Green Deal, para obter a neutralidade das emissões até 2050.